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segunda-feira, junho 27, 2011

Lá ao longe

O rio não é como uma música que se ouve muitas vezes. Lá ao longe, apesar de o reconhecermos e ser familiar, não se esgota nem nos esgota em milhares de dias que o contemplemos. Outro dia era um mar e o outro lado, nitido ao pormenor, era com se de outro continente se tratasse. A ponte com a sua alfândega, por certo, a outra margem ao alcance do olhar ainda que não acredite que as aves de aqui lá vão. No dia seguinte já o outro continente havia desaparecido numa neblina fantasmática luminosa, uma bruma de brilho como se o mar se evaporasse um pouco com o calor. A vontade de cruzar a fronteira para saber se a terra ainda estava lá. Teriam as aves ido lá espreitar?
O espaço que vai de mim a ti, quando nos encontramos, não é este rio. Mas tu, podias ser a outra margem. Uns dias visível, outros perceptível e ainda os outros, em que não se sabe se estás lá a não ser nos sonhos que entretiveram pontes e alfândegas.

quarta-feira, maio 11, 2011

Garça

Hoje fui até ao rio. Pensava na graça da linha que a desenha do ombro até à nuca. A linha mais-que-perfeita. Tão bela quanto a sua argúcia. E na imensidão da água estendida sob os meus pensamentos ei-la que cruza o ar no meu olhar para vir, com o seu bico e patas negras, pousar na água, onde deslizou e outras vezes caminhou, com o seu corpo de ave esculpida indiferente à cidade nas suas costas. Indiferente aos horrores da terra, recortando o ar na sua brancura, como o meu gato negro o faz ao contrário, chamando-me para o paraíso possível. Entrevisto, adivinhado. Este pássaro vem misturar-se nos meus desejos.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Passámos para a outra margem debaixo da luz ofuscante. Levámos connosco a fábula pequena que acordou, como eu fazia em criança, em correrias, junto aos canais e aos pássaros e ao sol. Vimos a primeira andorinha a primeira papoila. Suspendemos por momentos o ocaso do dia. E ele veio quase doce. Edviges é uma princesa e eu, aqui no estaleiro do porto. As mãos a ficar rijas.

quarta-feira, novembro 19, 2008

O sol dourado

Ela escreveu cartas. No quarto murado de um castelo sobre a colina da outra margem. Eram montes na outra margem, três. Longos, como se o corpo de um deus ali caído tivesse deixado o relevo para essoutra margem do nosso rio. As cartas chegaram, algumas, outras ainda as tem o vento que este rio é aqui, não nos podemos esquecer, como um mar. Por isso esta cidade livre. Quem havia de supor que caminhos dourados me esperavam a Oriente.

terça-feira, setembro 02, 2008

Edviges Fox, rainha dos bretões e às vezes da Escócia, não é rapunzel. Partiu para o outro lado do rio. Hoje umas léguas de espelho prateado. A luz inocente e cálida no fio do horizonte por cima das águas. Do guindaste conseguimos acompanhar os humores deste leito e do céu sobre ele. Descobrimos que tem cinco milhões de anos. Que é coisa pouca na história do mundo. Sabemos que ele corre, na hora em que um homem se abraça a um comboio para a morte, na hora em que Edviges deixa cair o meu coração, em todos os momentos continua a correr. E as mulheres e os homens prosseguem a sua vida. E nós, enganados pela visão sobranceira, adivinhamos que aqui ele possa descansar algumas águas e que a ideia do lago possa suspender, ainda que por breves momentos, a força do quotidiano.

quinta-feira, julho 17, 2008

Saímos das minas e subimos ao guindaste. Não voltaremos a ouvir a d. Amélia dizer que o Rui Costa é um senhor. Agora trabalhamos aqui no alto junto ao rio. A visão dele entontece, há dias em que chegamos a supor que desagua para os dois lados. Outros em que imaginamos recifes na outra margem ou Moby Dick saltando junto à proa de um cargueiro. Está calor no alto do guindaste, coloco as mãos sobre os olhos prescruto o azul depois da água para ver se aí vens. Se ainda vens. O que haverá quando vieres.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Solestício

Assim que os dias ficaram mais claros e que voltou a luz conhecida à cidade começámos a descer até junto ao rio. A ouvir a sirene dos navios. Encontrámos um rosto que ficou sem nome por algum tempo. Esse tempo ainda foi o melhor. Agora que há um nome o frio torna-se menos suportável. Os ponteiros do relógio jogam na equipa adversária.