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sábado, junho 20, 2009

Verão Quente

Organizamos a colecção de árvores. Como os dias se alongam agora mais os planos são maiores. Envio cartas pedindo músicas de que precisamos. Elas chegam, devagar, de cantos longínquos. Fica sempre tanta por chegar, como os mapas de que precisariamos para decifrar os novos mundos desconhecidos. Ou os fazemos de raíz arriscando o naufrágio ou tentamos copiá-los, roubá-los arriscando a honra e a pena capital.

quarta-feira, novembro 19, 2008

O sol dourado

Ela escreveu cartas. No quarto murado de um castelo sobre a colina da outra margem. Eram montes na outra margem, três. Longos, como se o corpo de um deus ali caído tivesse deixado o relevo para essoutra margem do nosso rio. As cartas chegaram, algumas, outras ainda as tem o vento que este rio é aqui, não nos podemos esquecer, como um mar. Por isso esta cidade livre. Quem havia de supor que caminhos dourados me esperavam a Oriente.

sexta-feira, setembro 05, 2008

É o quotidiano, por outro lado, que nos resgata ou ampara. Da morte da sublimação e e da queda de Ìcaro. Esse desenrolar pastoso, certo, ritmado, onde as coisas estão no lugar e não nos é exigido o esforço permanente da dúvida ou do coração. Essa é a força do quotidiano. Protege-nos da morte, da ideia de morte, da ideia de que Edviges chora, da ideia de que as minhas lágrimas vão acabar por esgotar se não secarem em definitivo por estes dias.

terça-feira, setembro 02, 2008

Edviges Fox, rainha dos bretões e às vezes da Escócia, não é rapunzel. Partiu para o outro lado do rio. Hoje umas léguas de espelho prateado. A luz inocente e cálida no fio do horizonte por cima das águas. Do guindaste conseguimos acompanhar os humores deste leito e do céu sobre ele. Descobrimos que tem cinco milhões de anos. Que é coisa pouca na história do mundo. Sabemos que ele corre, na hora em que um homem se abraça a um comboio para a morte, na hora em que Edviges deixa cair o meu coração, em todos os momentos continua a correr. E as mulheres e os homens prosseguem a sua vida. E nós, enganados pela visão sobranceira, adivinhamos que aqui ele possa descansar algumas águas e que a ideia do lago possa suspender, ainda que por breves momentos, a força do quotidiano.

quinta-feira, agosto 21, 2008

No dia seguinte ao meu furto a dona da Figueira veio oferecer-me duas mãos cheias deles. Estes verdadeiramente no ponto. Comi e ofereci. Penso em Rapunzel, tem as tranças cortadas mas uns braços suficientes para me puxar. Conheço tantos começos de estradas, muito maiores que a maioria dos seus caminhos. Atafulhados por tudo menos as silvas e amoras e todos os insectos inesperados que partilham do pó e da água. Caminhos que se vão atravancando de contingências até se transformarem no inferno que os seres humanos tão prodiga e infatigavelmente criam.

terça-feira, agosto 12, 2008

Meu ar fresco

Desci e roubei meia dúzia de figos. Não havia cheiro, só da caca dos gatos que andam por ali à vizinha dará. Mas o sabor. Era o mesmo de todas as fantasias. Abriste a janela para mim. Não sei como nomear-te. Se rainha da Escócia ou dos bretões. Como se pode beijar uma Enid Blyton?