segunda-feira, janeiro 14, 2008

Otto chamou-me para um encontro muito rápido e disse-me, de forma clínica, que teria de abandonar a montanha sob pena do agravamento dos níveis aceitáveis de melancolia. Disse-me ainda que neste Inverno a neve iria sitiar algumas casas e muito provavelmente o hospital, deixando-o privado de contactos possíveis com o exterior.
Tentei uma aproximação táctica em torno dos aspectos puramente ideológicos e políticos dos perigos da melancolia acentuada. Otto olhou-me de lado a lado como se eu me tivesse tornado transparente e mantendo-se assim, dirigido a um interlocutor para lá de nós mesmos, levantou-se e concluiu desta forma a nossa consulta-A melancolia acentuada é crónica e pode custar-lhe a vida.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Um dia chegou uma nova equipa de cientistas. Vinham agasalhados como para as calotes polares. Ao princípio pensámos que fossem turistas para o esqui e estranhámos não saberem que a neve andava instável. Em muito pouco tempo alteraram a bonomia do nosso hospital de campanha/montanha. Agitaram as áleas, os corredores, organizaram vários exames individuais médicos a todos os hóspedes e depois um conjunto de conferências para apresentar e comparar resultados. A equipa médica residente estava vencida, vacilando logo nos primeiros rounds. Tudo isto terminou, como alguns temiam, na mudança dos diagnósticos e prescrições. Ou, no dizer de Otto Springlers, no aperfeiçoamento e aprofundamento do diagnóstico.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Aproximadamente um ano a esta parte encontrei S. na beira do rio. Hoje, a esta distância e neste lugar julgo que adoeci por ter abandonado, não por querer mas porque a vida me desobrigou, com a garganta seca aquele lugar, onde ainda veio a balouçar um sorriso teu. Ficou preso à margem, sem conseguir que eu o desamarrasse. Vogando sobre as ondas quase inanimadas, no mesmo lugar. É aí que o encontro, faz-me lembrar o primeiro e um poema do O`Neill.
Aqui podíamos entregar-nos a toda a sorte de pensamentos. A melancolia era permitida, incentivada, reconfortante. Não havia gente a fingir-se feliz e isso, só por si, já era uma enorme felicidade.
Havia o receio de que os rigores do Inverno pudessem isolar a montanha e deixar-nos com menos mantimentos ainda do que a quantidade parca que nos anunciava desde o Verão o agudizar da crise. De qualquer forma tirando um ou outro a tranquilidade do hospital era inquebrável como se um grande urso fizesse os preparativos para o magnífico sono
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quinta-feira, novembro 15, 2007

Para além da caspa e de alguma melancolia persistente os exames não detectaram, até
agora, mais nada. O tratamento deve ser feito aqui e como, lá em baixo,
na cidade, pouco nos espera, aguardamos os bons resultados da prescrição
de Outono. Claro que há passeios que se podem fazer. Organizados ou improvisados, em grupo ou isoladamente. Basta que não nos afastemos muito da altitude e dos ares da Montanha, componente imprescindível do tratamento. Também seria difícil afastar-mo-nos tal é a distância que nos separa das últimas aldeias do sopé.

sexta-feira, outubro 26, 2007

montanha

E aí estávamos, comendo aqueles bolos de arroz com a pasta negra das sementes de girassol desfazendo-se num óleo viscoso e falando de ti entre as passas de um cigarro de mentol. Eram momentos possíveis neste sítio improvável. Como se fosse possível ter chegado a um lugar onde pudéssemos abandonar em permanência a violência do quotodiano. Não um espaço de fantasia mas o espaço em que o tempo não nos viesse inquietar.
Ali estávamos, tão soberanos de nós como qualquer escravo, e, ainda assim, com a mortalidade a espreitar-nos à esquina, num barulho de gato ao respirar, numa articulação mais rija do frio, ainda assim, nesta liberdade por entre sombras, estávamos experimentando a doçura de não pertencer realmente a este mundo. Nem a qualquer outro

quinta-feira, outubro 11, 2007

Decidimos ficar pelo acampamento onde se misturavam alguns doentes, alguns curadores e aquela espécie de seres humanos que acreditam ser sua missão levar a palavra de deus aos outros. A luz de Lisboa nesta altura do ano não é a que gosto mais e na cidade só encontrava testemunhas de Jeová. Desconhecendo a nossa verdadeira doença ficámos como Hans Castorp.

terça-feira, outubro 09, 2007

O sal todo do verão invadiu as artérias e a correntes sanguínea deixando-nos exaustos. Esperámos o pronto-socorro. Recuperamos agora do mau colestrol num hospital de campanha. Há muitos aviões e poucos alimentos. O arroz lembra-nos a Birmânia. Ser um daqueles monges é também um bom caminho para fugir à fome. Como era ir para padre há pouco mais que uma geração.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Como o verão puxa mais pelos salgados o meu coração transformou-se numa batata frita de pacote.

sexta-feira, julho 20, 2007

Fizemo-nos inquietos, sim, talvez irremediavelmente. Será tarde para encontrar uma casa? Será tarde para pertencer à cidade? Nela também se agitaram as árvores naqueles dias de ventania. Sabemos porque veio o vento, foi para não deixar nada no lugar.

segunda-feira, julho 09, 2007

o alperce

O fruto caiu do ramo e acertou-me num olho. Quem me manda estar a olhar para o céu quando há tanto que me ocupa aqui na terra?