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quinta-feira, julho 05, 2012

Entretemo-nos a imaginar o que a terra podia dar, as cartas que podiamos receber. Enganamos o tempo, mesmo que o sintamos aprazível. Insistimos com a água sobre a terra, alegramo-nos com o pequena flor mesmo sem fruto. Conseguimos em alguns momentos construir a casa ideal onde há açúcar branco, amarelo e até em pó. Conseguimos imaginar o tempo em que ele tenha um uso e as crianças pintem livros de receitas antigos. Imaginamos, imaginamos, porque sabemos que as crianças vão crescer mais rápido que os bolos ou os livros que conseguirmos ler e fazer. 
A melancolia agreste que nos pende de todos os movimentos não é um ponto de vista, a forma como entreolhamos o céu através das folhas das árvores. Ela é o que está no copo para bebermos. E a sede é infinita.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

O último mês

Ainda há romãs. As folhas da árvore sagrada foram mudando de cor até às superfícies da emoção. Os temporais estão a fazê-las cair, andámos a colectar algumas já podres do chão, há uma teimosia diferente este ano nesta árvore . Resistem para lá do seu tempo as folhas, os frutos foram em demasia, deram para os pássaros, para nós, para as formigas, para doces de inverno, e ainda ali estão alguns, secos, impedindo a árvore de se calar.
A figueira do lado foi cortada, grandes chuvadas fizeram-na tombar e acabou levada cerrada depois de tantas estações, depois de resistir a tanto ódio humano. As árvores são maiores que nós, ultrapassam-nos em tempo, em utilidade também na maioria das vezes. Mas não viemos aqui falar do que é útil. Nem estamos perto de saber o que isso significa.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Outono

As chuvas chegaram e a aranha engorda junto à janela. Deixa-nos os seus cadáveres para eu limpar meticulosa e pacientemente todos os dias. Apesar do ritmo lento e inútil da nossa força de trabalho também engordamos. Enquanto as sementes e as flores se avolumam à nossa volta. Ainda não chegaram notícias das guerras travadas contra os territórios de Edviges. Sonho com livros e com o tempo que nunca terei para eles. Uma vaga de melancolia amarela cobre-me a pele, uma espécie de tortura com brasas encandescentes.

sexta-feira, maio 08, 2009

Veio o calor e as formigas. Edviges vinha várias vezes no seu pequeno bote carregado de mantimentos. Já não tinhamos o cerco junto às muralhas reparadas há dois invernos atrás. A crise continuava mas parecia longe, vinha nas notícias de jornais atrasados que encontrávamos, por vezes.

sexta-feira, julho 20, 2007

Fizemo-nos inquietos, sim, talvez irremediavelmente. Será tarde para encontrar uma casa? Será tarde para pertencer à cidade? Nela também se agitaram as árvores naqueles dias de ventania. Sabemos porque veio o vento, foi para não deixar nada no lugar.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

no meio

A minha casa tem dois lados. Como o coração e a cabeça. De um lado faz sol do outro sombra. De um lado o céu do outro os prédios. De um lado o silêncio do outro os carros. De um lado um vestígio de outros tempos do outro o Tejo. De um lado as árvores do outro o vento. Como eu não posso viver no meio da casa vou ter de encontrar outra.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

As árvores lá trás

A figueira ficou nua depois da tempestade. Foram-se as folhas já amarelecidas pelas primeiras chuvas. Mas, ao lado, as tangerinas ficaram cheias e a rebentar de cor.