segunda-feira, março 31, 2014

o amor é perene a perda também

A Rainha quer levar-nos a passear. E sabemos que vai levar-nos para o fundo do lago, onde morreu narciso. Eu preferia sem palavras e preferia não ter razão. Na frente de batalha rebentam obuses, deixamos de ouvir. Uma das guerras é abandonar o poder. Os narcisos são belos ao longe, tu sabes.

terça-feira, março 04, 2014

notícias da frente ocidental

A sua vaidade deixou-me só na frente de batalha para onde fomos destacados. E não sabes nem espero que saibas o que é a frente de batalha. A solidão no meio dela é pior do que ela própria. Por isso a sua vaidade é mais cruel que mortífera. Envelhece-nos e atira-nos para a morte, muito mais do que a guerra, muito mais do que o tempo.

segunda-feira, dezembro 30, 2013

O céu está limpo. Daqui vêm-se as estrelas. Isso é o mais verdadeiro que podemos dizer do tempo e de como viemos dele para aqui. Cumpriram-se todas as estações entre nós e nenhum novo círculo poderá entregar-nos uma resposta melhor. Que fazer então quando as palavras ainda existem mas o caminho para elas é tortuoso, ínvio e atravancado por obstáculos com que não contamos? O quotidiano, tempo curto e voraz, é o maior. O outro é a pele que envelhece ou perde o brilho nas batalhas que travamos sem as termos escolhido. Esse é um outro tempo, o dos corpos. É neles, como no céu limpo desta noite, que há verdade. 

sexta-feira, setembro 20, 2013

O tempo voltou a fugir-me e nada existe à vista que o deixe colar as suas memórias. Aqui. O seu lastro. Uma qualquer tessitura que me devolva os dias inteiros do astro alto ou estes de Setembro. Nem sempre sigo o teu pensamento, muitas vezes não a acompanho. Mas amo-a e à forma como o faz. Com um peito limpo.

sábado, junho 22, 2013

A noite passada as nuvens corriam velozes deixando chegar em intervalos rápidos a luz preciosa da lua, breves momentos quando a luz da cidade a deixa chegar. Esta aldeia dentro da cidade mas mesmo assim cheia de lâmpadas e comboios e aviões, por mais que cresçam as ervas por entre os calcários da nossa calçada o silêncio nunca é suficiente. Nem é o silêncio mas o rumor das folhas de uma árvore, a sua sombra dançando cá em baixo. Ao pé dos nossos pés, nús. Por mais que nos recolhamos aos jardins e que a cidade acorde quieta e sossegada, sente-se ou adivinha-se a presença de milhares de pessoas, adivinha-se a sua errância, pressente-se a sua violência, à espera como um gato ou irrompendo como mosquitos esfomeados. E depois somos nós, esses mosquitos, inquietos, sem sede nenhuma. Errando também, sonhando com a montanha ou com cidades em chamas.
À conta do fogo entrevi uma história que podia explicar-nos. A teogonia que nos explicava como seres eternos incarnando aqui e ali os mesmos tipos ou caracteres. Reproduzindo sempre em sucessivas e numerosas gerações os mesmos vinte ou trinta deuses que discutem, desde o princípio dos tempos, quem e para quem esta batalha. O mesmo deus ou espírito ocupa-se de ti e de mim e assim, por erros de cálculo temporal e espacial, cruzamos a nossa existência e sem homens duplicados nem duplas vidas de v, entendemos as paralelas e tangentes que desenham esta geometria difícil e pegajosa.

quarta-feira, maio 15, 2013

Não sei agora onde encontrar o perfume daquelas primeiras florações, que surge, inesperado, na noite. Escura como o gato que caiu do muro mais alto do castelo. Sobreviveu e foi resgatado num abraço a um torso nú e tatuado de um estrangeiro meigo e educado. Os únicos que poderão gostar deste país onde a guerra prossegue metódica e silenciosa. Os cadáveres são escondidos a maior parte das vezes. Os escribas corajosos que falam destas vítimas são silenciados com as festas de deus ou do desporto. E como nem as suas famílias suportam o sofrimento e a humilhação juntam-se aos magotes que entregam os corpos à vida que julgam possível, em simulacros de alegria. Quando a morte chegar ninguém se lembrará e se acontecer lembrar-se desejará que chegue depressa e sem dores demasiadas.

sábado, abril 20, 2013

ah bruta flor

Subiu à varanda de onde via quase a cidade inteira. Subiu como fazia todos os dias, antes de regar as plantas porque a primavera estiolava. Da varanda via tudo ou quase tudo o que precisava. Dali, depois de regar os vasos, regressou ao interior e à mansidão dos esponsais. Ali podia organizar tudo quanto tinha visto da cidade, contar recontar e pôr em marcha o desejo que os alimentaria ou os manteria à tona de água até ao próximo dia.
O corpo que oferecia, generosa, da varanda, ficava mais grácil ao ser visto e era por isso que o oferecia, com menos palavras. Para levar consigo essa graça, para o único sítio onde o seu corpo não lhe bastava.

domingo, março 31, 2013

Não precisa de ser às quartas-feiras como no filme de Patrice Chéreau mas o silêncio é uma possibilidade. Sem palavras, que são tantas afinal, e com corpos, tão poucos, será difícil (será? pergunto ao Ovídeo mas ele não responde) deitar a perder algo tão delicado e raro.  Entretanto os dias somam-se uns aos outros sem que tenhamos tempo de pestanejar e fazer balanços no final da noite, se os há nalguns dias entre estações fazem-se as pazes por momentos com a humanidade e desculpa-se ao universo a deus ter-nos deixado aqui para morrer. Com ou sem esperança trouxeste-me até aqui.