sábado, junho 22, 2013

A noite passada as nuvens corriam velozes deixando chegar em intervalos rápidos a luz preciosa da lua, breves momentos quando a luz da cidade a deixa chegar. Esta aldeia dentro da cidade mas mesmo assim cheia de lâmpadas e comboios e aviões, por mais que cresçam as ervas por entre os calcários da nossa calçada o silêncio nunca é suficiente. Nem é o silêncio mas o rumor das folhas de uma árvore, a sua sombra dançando cá em baixo. Ao pé dos nossos pés, nús. Por mais que nos recolhamos aos jardins e que a cidade acorde quieta e sossegada, sente-se ou adivinha-se a presença de milhares de pessoas, adivinha-se a sua errância, pressente-se a sua violência, à espera como um gato ou irrompendo como mosquitos esfomeados. E depois somos nós, esses mosquitos, inquietos, sem sede nenhuma. Errando também, sonhando com a montanha ou com cidades em chamas.
À conta do fogo entrevi uma história que podia explicar-nos. A teogonia que nos explicava como seres eternos incarnando aqui e ali os mesmos tipos ou caracteres. Reproduzindo sempre em sucessivas e numerosas gerações os mesmos vinte ou trinta deuses que discutem, desde o princípio dos tempos, quem e para quem esta batalha. O mesmo deus ou espírito ocupa-se de ti e de mim e assim, por erros de cálculo temporal e espacial, cruzamos a nossa existência e sem homens duplicados nem duplas vidas de v, entendemos as paralelas e tangentes que desenham esta geometria difícil e pegajosa.

quarta-feira, maio 15, 2013

Não sei agora onde encontrar o perfume daquelas primeiras florações, que surge, inesperado, na noite. Escura como o gato que caiu do muro mais alto do castelo. Sobreviveu e foi resgatado num abraço a um torso nú e tatuado de um estrangeiro meigo e educado. Os únicos que poderão gostar deste país onde a guerra prossegue metódica e silenciosa. Os cadáveres são escondidos a maior parte das vezes. Os escribas corajosos que falam destas vítimas são silenciados com as festas de deus ou do desporto. E como nem as suas famílias suportam o sofrimento e a humilhação juntam-se aos magotes que entregam os corpos à vida que julgam possível, em simulacros de alegria. Quando a morte chegar ninguém se lembrará e se acontecer lembrar-se desejará que chegue depressa e sem dores demasiadas.

sábado, abril 20, 2013

ah bruta flor

Subiu à varanda de onde via quase a cidade inteira. Subiu como fazia todos os dias, antes de regar as plantas porque a primavera estiolava. Da varanda via tudo ou quase tudo o que precisava. Dali, depois de regar os vasos, regressou ao interior e à mansidão dos esponsais. Ali podia organizar tudo quanto tinha visto da cidade, contar recontar e pôr em marcha o desejo que os alimentaria ou os manteria à tona de água até ao próximo dia.
O corpo que oferecia, generosa, da varanda, ficava mais grácil ao ser visto e era por isso que o oferecia, com menos palavras. Para levar consigo essa graça, para o único sítio onde o seu corpo não lhe bastava.

domingo, março 31, 2013

Não precisa de ser às quartas-feiras como no filme de Patrice Chéreau mas o silêncio é uma possibilidade. Sem palavras, que são tantas afinal, e com corpos, tão poucos, será difícil (será? pergunto ao Ovídeo mas ele não responde) deitar a perder algo tão delicado e raro.  Entretanto os dias somam-se uns aos outros sem que tenhamos tempo de pestanejar e fazer balanços no final da noite, se os há nalguns dias entre estações fazem-se as pazes por momentos com a humanidade e desculpa-se ao universo a deus ter-nos deixado aqui para morrer. Com ou sem esperança trouxeste-me até aqui.

terça-feira, março 26, 2013

Dói-me o peito, um bocadinho. Por causa desta humidade que não acaba ou por não conseguir escrever-te uma carta. Estou à procura da melhor forma de te apresentar um plano. Não sei se um plano é melhor do que plano nenhum e poesia e esquecimento. Dói-me um pouco o peito porque o corpo teima em contrariar, sem lhe pedirmos sem o autorizarmos, a vontade ou a velocidade das ideias. Talvez deva fumar menos.

segunda-feira, março 18, 2013

A cidade está coberta de pobres e de flores também. São discretas nas pequenas árvores. Vejo-as, como todas as palavras ou signos, como a luz cinza deste inverno, vejo-as e é uma cidade diferente. Ou porque cheguei de novo a uma das muitas cidades dentro dela ou porque estás em quase todos os meus caminhos. E por isso aquele amontoar de nuvens naquela direcção, por cima daquela árvore e através daquele pedaço de janela, não é o mesmo amontoar de nuvens que nos devolve a escala de nós mesmos, perdida se caminharmos só por pedras da calçada. O amontoar daquelas nuvens naquele pedaço de céu que não premeditámos ver, mas que se colocou ali onde o olhar súbito apontou, inquieta-nos. Como se o movimento pesado deste corpo de nuvens brancas e cinzentas pudesse anunciar um drama maior. Podemos ver as flores, podemos ver os pobres.

quarta-feira, março 06, 2013

Talvez a chuva e o vento não tenham deixado o presente chegar. Mas sobrevivemos a temporais antes. Continuo a pensar na montanha, menos, a cidade nunca nos desocupa. Mesmo com sinos a dar-nos algumas horas do dia. Demoliram uma casa com cerca de 150 anos ao pé de nós. Em duas semanas. Quantas gerações cabem em 150 anos? Hoje retiraram um cadáver de alguém com perto de 90 anos de uma casa, o aparato na avenida foi tão grande que a morte solitária acabou por dar tanto nas vistas.

domingo, março 03, 2013

Flor do inverno

Tens de caminhar, ao anoitecer, junto ao muro do jardim da marquês sá da bandeira a chegar a marquês da fronteira. Tem de ser por estes dias. Tudo o mais pode esperar. Se ela caminhar junto ao muro do jardim, ao anoitecer, por estes dias, não preciso de esperar pela Primavera. Não consigo deixar-te as camélias que tenho aqui. E sei que precisas, das prendas das flores apesar de estares a ir embora de todos os lugares onde imagino, ou não, ver-te.

terça-feira, fevereiro 26, 2013

quinta-feira, fevereiro 14, 2013


Quero vê-la. Num jardim, pode ser num jardim. Não vou apanhar flores para lhe dar, talvez bolotas. Sementes de uma árvore que tenham vindo até nós. Hoje estive de volta das sementes. A promessa de lhes decobrir os segredos é o antídoto para o tempo que fica perdido na força para ganhar o dia. Os diques nunca estão prontos, os trabalhos e os dias são infindos para que a Casa fique a salvo. O que nos salva são os pássaros, acordou-me o coração depois daqueles dias de tempestade ouvi-los de novo. Eles sabem que lhes pertenço. Que vidas anteriores guardas de onde saem tantas palavras? Saberá ela que o desejo mata e é preciso estar guarnecido para não sucumbir a essa morte, interrogação. Sabe sim mas está mais no presente do que eu. Lemos outro dia uma citação de quem não sei, que a alegria é uma conquista.
 Esta flor não era nova, estava no seu ocaso como o ano prestes a terminar quando a vi. Este dia também, com cheiro fresco de mar dentro e sem a tua pele. Há um sem que se avoluma.