quarta-feira, janeiro 30, 2013

Do que eu gosto é da tua alegria

Meu conforto dos dias. Sem o romantismo deste inglês que também escreveu para uma mulher assim.


Ela era um Espírito da Alegria

Quando a vi no primeiro dia;
Bela Aparição brilhante
Enviada ao encanto do instante;
Seus olhos, como o Crepúsculo sereno;
Como o Crepúsculo, seu cabelo moreno;
E tudo mais que a envolvia
À Aurora e à Primavera pertencia;
Forma dançante, imagem a alegrar?
A surpreender, assolar e assombrar.

Olhei-a de perto, lá estava ela,
Um Espírito, mas também uma Donzela!
Seu movimento leve, solto e frugal,
E passos da liberdade virginal;
No semblante se encontraram as nuanças
Das doces promessas e doces lembranças;
Criatura nem brilhante ou boa demais
Para os afazeres cotidianos e normais,
Ou a sofrer passageiro e simples desejos,
Louvor, culpa, amor, lágrimas, sorrisos e beijos.

Com os olhos tranquilos posso contemplar
Desta máquina o verdadeiro pulsar;
Um ser que, pensativo, respira forte;
Um Viajante, em meio à vida e à morte;
A razão firme, a vontade temperada,
Uma perfeita Mulher soberbamente forjada;
Paciência, visão, habilidade e poder,
Para alertar, confortar e reger;
E ainda um Espírito com fulgor magistral,
Com algo da luz angelical.

William Wordsworth

terça-feira, janeiro 15, 2013

Onde encontrar, onde procurar, a explicação para a coincidência do pensamento. Às vezes no mesmo dia. Dos mais gerais aos mais concretos. Se calhar devia avisar-te disso e não deixar cair no cartesianismo mais uma prova do inexplicável.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

ver a dois tempos

E quanto mais ela olha, as flores também, mais eu cubro com as mãos o rosto, com as mãos os olhos, fecho-os e reabro-os logo depois reerguendo a cabeça, como se emergisse à tona da água. Sabes, para me proteger do excesso de sentido -Llansol - tive de diluir a memória e o tempo, como as papas cerelac, mais ralas, menos densas. E agora, as tuas palabras, obrigam-me a concentrá-lo, o tempo, a espessá-lo como as papas. E seguro-o nas mãos como de uma granada se tratasse.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

ela Olha as árvores, as folhas, as calçadas, as janelas, as pessoas a Cidade.E Olha de novo. Não desiste de olhar, do olhar. Ouvem-se as gaivotas na cidade desde ontem. Trazem-me de volta à vida que imagino ter deixado entre afazeres, obrigações ou outras cobardias.O som das gaivotas no céu branco é a única prova, para já,de que há uma vida verdadeira para lá desta onde respiro a custo.

sexta-feira, outubro 26, 2012

Como se me tivessem arrancado uma parte, um bocado. Sem saber qual exactamente e se volta a crescer essa parte não exacta que falta sabemos, para já, não serem atalhos as vias que escolhemos nem vias sacras tampouco. Mas choraremos sempre o fim das estações e a morte dos poetas.

quinta-feira, julho 05, 2012

Entretemo-nos a imaginar o que a terra podia dar, as cartas que podiamos receber. Enganamos o tempo, mesmo que o sintamos aprazível. Insistimos com a água sobre a terra, alegramo-nos com o pequena flor mesmo sem fruto. Conseguimos em alguns momentos construir a casa ideal onde há açúcar branco, amarelo e até em pó. Conseguimos imaginar o tempo em que ele tenha um uso e as crianças pintem livros de receitas antigos. Imaginamos, imaginamos, porque sabemos que as crianças vão crescer mais rápido que os bolos ou os livros que conseguirmos ler e fazer. 
A melancolia agreste que nos pende de todos os movimentos não é um ponto de vista, a forma como entreolhamos o céu através das folhas das árvores. Ela é o que está no copo para bebermos. E a sede é infinita.

quinta-feira, junho 14, 2012

A inércia tem um peso considerável. Uma pessoa deita-se para descansar um pouco e quando acorda passaram 30 anos.

sexta-feira, junho 01, 2012

Começávamos a aperceber-nos, de forma ténue e ainda não completamente deslindável, que podia haver uma inclinação ou uma predisposição para o perigo como a atracção para o abismo. Não estava sempre presente. Acordava-nos às vezes e impunha-se, mais forte mas menos evidente que o dia. Ocupava-nos, como um pequeno monstro escondido entre as entranhas e, em menos que nada, lá estávamos de novo, no olho do furação. À espera de um braço uma mão uma mãe que nos retirasse a tempo da tempestade. A tempo de acreditarmos. Ainda.

sábado, abril 28, 2012