quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Fugir ao frio de Fevereiro não será tão difícil como chegar ao fim dos dias em que as circunstâncias e as contingências são, se não um castigo ou um prémio, uma prova. Como atravessar o deserto sem água ou um chapéu decente. Atravessar o deserto sem saber se chegar ao fim é melhor que perecer pelo caminho. Atravessar o deserto pelo prazer efémero de respirar e sentir a brisa quente do fim do dia. Vou ficar a ver-te chegar aos planaltos da Anatólia e esperar que os elementos te recebam e sejam para ti suaves.

terça-feira, janeiro 10, 2012

Janeiro com pássaros

Hoje pedi ao pisco de peito ruivo que cantava ao amanhecer que fosse ter contigo, que te acordasse também. O pássaro voltou no meio do dia, pousou sob o sol e a sombra das árvores na cerca do jardim e ali ficou, para que o visse. Pequeno, nervoso.
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Se houver sol nos dias de Janeiro ele traz-nos uma luz como nenhuma outra. Aperto-a bem. Semicerro os olhos com ela como se o solestício não trouxesse esperança alguma ou como se os dias pudessem, de alguma forma inexplicável, não suceder-se como a natureza os programou.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

tempo, sempre o tempo

Este ano perdi dois relógios. Não lhes tinha amor porque esse ficou num relógio que perdi a descer uma ravina há uns poucos de anos atrás. Nessa altura ainda o tempo não me fugia de forma descontrolada por isso foi só um objecto com a sua história particular que desapareceu. Perdemos mais coisas entretanto, uma determinada noção da realidade e coisas que nos fogem da vista por momentos e descobrimos que a sua falta nos estangula. Mesmo que seja uma fada. Do Ar.

quarta-feira, novembro 09, 2011

Boris escreveu. Diz que pode ser feliz em 66 m2 em Lisboa. Que por entre os carros consegue ouvir os pássaros. Que os ouve, sempre. Não me enviou o seu endereço por isso não pude responder-lhe e contar-lhe das chuvadas que derrubaram os muros que ainda há três anos arranjáramos. Nem contar-lhe que perdemos castelos e aldeias inteiras a norte. Que a memória é curta e todos se esquecem que a crise tinha chegado há algum tempo e não é de agora que os bancos jogam na roleta as nossas vidas. A crise é mais permanente que nós. E seremos sempre poucos, uma minoria, abandonada, solitária a maior parte da vida. Traída pela maioria que de quando em quando, famélica, se virá juntar aos insurrectos, um pouco mais nutrida aos seus algozes.

segunda-feira, junho 27, 2011

Lá ao longe

O rio não é como uma música que se ouve muitas vezes. Lá ao longe, apesar de o reconhecermos e ser familiar, não se esgota nem nos esgota em milhares de dias que o contemplemos. Outro dia era um mar e o outro lado, nitido ao pormenor, era com se de outro continente se tratasse. A ponte com a sua alfândega, por certo, a outra margem ao alcance do olhar ainda que não acredite que as aves de aqui lá vão. No dia seguinte já o outro continente havia desaparecido numa neblina fantasmática luminosa, uma bruma de brilho como se o mar se evaporasse um pouco com o calor. A vontade de cruzar a fronteira para saber se a terra ainda estava lá. Teriam as aves ido lá espreitar?
O espaço que vai de mim a ti, quando nos encontramos, não é este rio. Mas tu, podias ser a outra margem. Uns dias visível, outros perceptível e ainda os outros, em que não se sabe se estás lá a não ser nos sonhos que entretiveram pontes e alfândegas.

terça-feira, junho 14, 2011

Esta noite há um eclipse total da lua e eu gostava de subir a uma torre ou a um terraço. Poder ver a luz a reaparecer no teu rosto. Em vez disso a burocracia e o economato queimam-me as pestanas, envelhecem-me a íris e mais alguma coisa de que não dou conta.

Vejo a minha geração e como gostava de identificar-me em vez de me sentir entre inimigos.

quarta-feira, maio 11, 2011

Garça

Hoje fui até ao rio. Pensava na graça da linha que a desenha do ombro até à nuca. A linha mais-que-perfeita. Tão bela quanto a sua argúcia. E na imensidão da água estendida sob os meus pensamentos ei-la que cruza o ar no meu olhar para vir, com o seu bico e patas negras, pousar na água, onde deslizou e outras vezes caminhou, com o seu corpo de ave esculpida indiferente à cidade nas suas costas. Indiferente aos horrores da terra, recortando o ar na sua brancura, como o meu gato negro o faz ao contrário, chamando-me para o paraíso possível. Entrevisto, adivinhado. Este pássaro vem misturar-se nos meus desejos.

sexta-feira, abril 15, 2011

Abril com pássaros

Na primeira vez pousou no passeio, de costas para nós, esticou as asas. Ficámos em silêncio. Uma imagem de sonho no intervalo da cidade ali junto ao rio. Abanou a cabeça grácil o pescoço esguio a trança leve. As patas tão compridas, estranhas a estas paragens de pardais. Deve ser a deusa das aves. Ignorou-nos dentro do carro a espreitá-la, as palavras e a respiração suspensa. Lenta e delicada mergulhou o bico longo no lago artificial e do mesmo modo trouxe para fora da água um peixe que brilhou por segundos à luz do sol do meio do dia e escorregou, como se tudo tivesse sido combinado e encenado, como se estivesse à espera dela desde sempre para ser levado na barrida da ave branca que, sem um sobressalto, levantou voo, da mesma forma elegante como tinha pousado. Esta imagem, como uma visitação, manteve-se viva, aparecendo subterrânea em sonhos ou desejos, até à semana passada, num dia em que a Garça Branca atravessou os campos do aeroporto, o calor inóspito do nosso ruído, só para cruzar o caminho que eu fazia em direcção a uma outra graça.

sábado, março 05, 2011

As árvores têm de ser centenárias, ou caminhar para lá. Frondosas. Tem de ser uma floresta o que nos espera. A cidade, aqui, serve-nos de preparativo. Reunimos mantimentos, coragem e tempo perdido. Tem passado tão rápido que este ano houve andornhas que não regressaram não chegaram a partir.