domingo, julho 05, 2009

Julho com pássaros

Os pássaros estão sempre connosco, também. Dentro das muralhas, no topo da torre e lá fora, à volta do castelo. Saio, fecho os olhos, sinto pela frescura do vento e pelo calor na pele que o sol está alto. O céu está alto também, há muito espaço entre nós e ele. Azul, claro, luminoso sem ferir como acontece depois em Agosto. Contra o espelho de calcário dessa altura as nossas pupilas nada podem.
Mas, agora, o silêncio. A cidade está feita de silêncio. Redondo, alto como o sol deste domingo. O domingo mais silencioso e azul da época. Amanhã as rotinas põem-se em marcha, como roldanas, mas hão-de estar mais soltas porque já um terço da população se exilou para destino balneares.
Os mistérios de Lisboa ficam mais à vista.

sábado, junho 20, 2009

Verão Quente

Organizamos a colecção de árvores. Como os dias se alongam agora mais os planos são maiores. Envio cartas pedindo músicas de que precisamos. Elas chegam, devagar, de cantos longínquos. Fica sempre tanta por chegar, como os mapas de que precisariamos para decifrar os novos mundos desconhecidos. Ou os fazemos de raíz arriscando o naufrágio ou tentamos copiá-los, roubá-los arriscando a honra e a pena capital.

sexta-feira, maio 08, 2009

Veio o calor e as formigas. Edviges vinha várias vezes no seu pequeno bote carregado de mantimentos. Já não tinhamos o cerco junto às muralhas reparadas há dois invernos atrás. A crise continuava mas parecia longe, vinha nas notícias de jornais atrasados que encontrávamos, por vezes.

quinta-feira, abril 30, 2009

Procuramos o sabor, a forma, a memória primacial. No alho, na flor nova que desponta, na casca da laranja arrancada ao fruto. Procurar assim a manhã (o orvalho?)ocupa todo o ser. O tempo continua a escoar-se apesar da nossa vontade em habitá-lo no presente de forma inteira. Como dizia Sophia.

segunda-feira, março 30, 2009

Ela é livre. E há, nas pessoas livres, o apuro da sensibilidade. Uma pele mais fina. Contrapartidas. Pediu-me para escrever as nossas histórias. Se o verde desponta em cada ramo mais depressa que o nosso respirar como conseguir registar por palavras o que se quer a todo o custo viver (salvar).
Tive saudades da montanha. Sei que lá estaríamos a salvo da voragem das estações.

segunda-feira, março 16, 2009

Nós e em mim o mesmo espanto. Lança os dedos longos sobre a linha e a agulha vai e vem como se esse movimento já estivesse à espera das mãos que o tornam visível. Edviges respira e eu espanto-me. Queria ficar a olhá-la e às mãos e à agulha muito mais tempo que todos os tecidos por cozer ou cerzir me concedessem. Em mim o espanto e nada mais mexe. Nela a voz doce e mil histórias enquanto as mãos dançam nesse movimento que nos precede, que existe para além de nós e que me traz, em suspensão, irrevogável em face dela.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Passámos para a outra margem debaixo da luz ofuscante. Levámos connosco a fábula pequena que acordou, como eu fazia em criança, em correrias, junto aos canais e aos pássaros e ao sol. Vimos a primeira andorinha a primeira papoila. Suspendemos por momentos o ocaso do dia. E ele veio quase doce. Edviges é uma princesa e eu, aqui no estaleiro do porto. As mãos a ficar rijas.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Ajoelhei-me, inclinei a cabeça para a frente e ela lavou-me, delicada e demoradamente o cabelo. E o cabelo é para mim o princípio do mundo e das suas incertezas. Esperou-me, depois, enquanto me fui despedir de um pedaço de mim, levado para sempre numa caixa de chumbo. Pode o silêncio da pedra ser derrotado com o nosso amor?

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Edviges veio, pela madrugada, atravessando os bancos de areia, trouxe um barco tosco pequeno, deixava-lhe os pés fora da borda se quisesse deitar-se a ver as estrelas. Chegou mansamente e beijou-me, ficámos a aguardar os primeiros raios de luz. Vamos fazer o mesmo em todas as noites diante de nós.

quarta-feira, novembro 19, 2008

O sol dourado

Ela escreveu cartas. No quarto murado de um castelo sobre a colina da outra margem. Eram montes na outra margem, três. Longos, como se o corpo de um deus ali caído tivesse deixado o relevo para essoutra margem do nosso rio. As cartas chegaram, algumas, outras ainda as tem o vento que este rio é aqui, não nos podemos esquecer, como um mar. Por isso esta cidade livre. Quem havia de supor que caminhos dourados me esperavam a Oriente.