Veio o calor e as formigas. Edviges vinha várias vezes no seu pequeno bote carregado de mantimentos. Já não tinhamos o cerco junto às muralhas reparadas há dois invernos atrás. A crise continuava mas parecia longe, vinha nas notícias de jornais atrasados que encontrávamos, por vezes.
a tinta, fresca ou nao, pode servir para colorir todos os muros da cidade, do suburbio, clandestina poe a prova mecanismos securitarios disfarcados de liberdade para acabar de vez com ela a_tinta@hotmail.com
sexta-feira, maio 08, 2009
quinta-feira, abril 30, 2009
segunda-feira, março 30, 2009
Ela é livre. E há, nas pessoas livres, o apuro da sensibilidade. Uma pele mais fina. Contrapartidas. Pediu-me para escrever as nossas histórias. Se o verde desponta em cada ramo mais depressa que o nosso respirar como conseguir registar por palavras o que se quer a todo o custo viver (salvar).
Tive saudades da montanha. Sei que lá estaríamos a salvo da voragem das estações.
segunda-feira, março 16, 2009
Nós e em mim o mesmo espanto. Lança os dedos longos sobre a linha e a agulha vai e vem como se esse movimento já estivesse à espera das mãos que o tornam visível. Edviges respira e eu espanto-me. Queria ficar a olhá-la e às mãos e à agulha muito mais tempo que todos os tecidos por cozer ou cerzir me concedessem. Em mim o espanto e nada mais mexe. Nela a voz doce e mil histórias enquanto as mãos dançam nesse movimento que nos precede, que existe para além de nós e que me traz, em suspensão, irrevogável em face dela.
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
Passámos para a outra margem debaixo da luz ofuscante. Levámos connosco a fábula pequena que acordou, como eu fazia em criança, em correrias, junto aos canais e aos pássaros e ao sol. Vimos a primeira andorinha a primeira papoila. Suspendemos por momentos o ocaso do dia. E ele veio quase doce. Edviges é uma princesa e eu, aqui no estaleiro do porto. As mãos a ficar rijas.
quinta-feira, janeiro 22, 2009
Ajoelhei-me, inclinei a cabeça para a frente e ela lavou-me, delicada e demoradamente o cabelo. E o cabelo é para mim o princípio do mundo e das suas incertezas. Esperou-me, depois, enquanto me fui despedir de um pedaço de mim, levado para sempre numa caixa de chumbo. Pode o silêncio da pedra ser derrotado com o nosso amor?
sexta-feira, dezembro 05, 2008
quarta-feira, novembro 19, 2008
O sol dourado
Ela escreveu cartas. No quarto murado de um castelo sobre a colina da outra margem. Eram montes na outra margem, três. Longos, como se o corpo de um deus ali caído tivesse deixado o relevo para essoutra margem do nosso rio. As cartas chegaram, algumas, outras ainda as tem o vento que este rio é aqui, não nos podemos esquecer, como um mar. Por isso esta cidade livre. Quem havia de supor que caminhos dourados me esperavam a Oriente.
sexta-feira, novembro 07, 2008
Reparaste que hoje as cores se adensam e crescem em cada coisa que temos diante e em torno de nós? Que o rio tem a cor do mar de Agosto? Mas, da caixinha vidrada do meu guindaste, tem-me ocupado mais o céu. As nuvens de Outubro e de Novembro. Vêm contar-nos histórias todos os dias. Avolumam-se por entre luz e sombra. Entre nós e o azul aí se intrometem e pendem a dizer-nos que não estamos sós.
quarta-feira, outubro 08, 2008
Outono 2008
Celebro com a minha Bud o solestício de Inverno, a capicua, a não existência de tornados e demais catástrofes naturais, o novo dealbar da queda do capitalismo. O céu está fechado e não se podem ler nas estrelas o dia de amanhã. Talvez tenha sido sempre assim e não tenhamos dado conta. Hei-de ir à luta por Edviges ainda que isso me custe o tempo de uma vida. Ou de algumas estações, o que vem a dar no mesmo quando não se sabe quanto tempo temos ou, mais inquietante, quando não se sabe como estaremos nesse tempo. Como o passado anda quase sempre connosco, ensina-nos que ele próprio é uma pedra preciosa quando se transforma no que é. Antes disso vivemos cegos, como as crias que ainda não abriram os olhos, com a violência do presente. Edviges pertence-me e isso é mais certo que toda a improbabilidade, que toda a casuística e dor no universo.
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