segunda-feira, março 30, 2009

Ela é livre. E há, nas pessoas livres, o apuro da sensibilidade. Uma pele mais fina. Contrapartidas. Pediu-me para escrever as nossas histórias. Se o verde desponta em cada ramo mais depressa que o nosso respirar como conseguir registar por palavras o que se quer a todo o custo viver (salvar).
Tive saudades da montanha. Sei que lá estaríamos a salvo da voragem das estações.

segunda-feira, março 16, 2009

Nós e em mim o mesmo espanto. Lança os dedos longos sobre a linha e a agulha vai e vem como se esse movimento já estivesse à espera das mãos que o tornam visível. Edviges respira e eu espanto-me. Queria ficar a olhá-la e às mãos e à agulha muito mais tempo que todos os tecidos por cozer ou cerzir me concedessem. Em mim o espanto e nada mais mexe. Nela a voz doce e mil histórias enquanto as mãos dançam nesse movimento que nos precede, que existe para além de nós e que me traz, em suspensão, irrevogável em face dela.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Passámos para a outra margem debaixo da luz ofuscante. Levámos connosco a fábula pequena que acordou, como eu fazia em criança, em correrias, junto aos canais e aos pássaros e ao sol. Vimos a primeira andorinha a primeira papoila. Suspendemos por momentos o ocaso do dia. E ele veio quase doce. Edviges é uma princesa e eu, aqui no estaleiro do porto. As mãos a ficar rijas.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Ajoelhei-me, inclinei a cabeça para a frente e ela lavou-me, delicada e demoradamente o cabelo. E o cabelo é para mim o princípio do mundo e das suas incertezas. Esperou-me, depois, enquanto me fui despedir de um pedaço de mim, levado para sempre numa caixa de chumbo. Pode o silêncio da pedra ser derrotado com o nosso amor?

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Edviges veio, pela madrugada, atravessando os bancos de areia, trouxe um barco tosco pequeno, deixava-lhe os pés fora da borda se quisesse deitar-se a ver as estrelas. Chegou mansamente e beijou-me, ficámos a aguardar os primeiros raios de luz. Vamos fazer o mesmo em todas as noites diante de nós.

quarta-feira, novembro 19, 2008

O sol dourado

Ela escreveu cartas. No quarto murado de um castelo sobre a colina da outra margem. Eram montes na outra margem, três. Longos, como se o corpo de um deus ali caído tivesse deixado o relevo para essoutra margem do nosso rio. As cartas chegaram, algumas, outras ainda as tem o vento que este rio é aqui, não nos podemos esquecer, como um mar. Por isso esta cidade livre. Quem havia de supor que caminhos dourados me esperavam a Oriente.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Reparaste que hoje as cores se adensam e crescem em cada coisa que temos diante e em torno de nós? Que o rio tem a cor do mar de Agosto? Mas, da caixinha vidrada do meu guindaste, tem-me ocupado mais o céu. As nuvens de Outubro e de Novembro. Vêm contar-nos histórias todos os dias. Avolumam-se por entre luz e sombra. Entre nós e o azul aí se intrometem e pendem a dizer-nos que não estamos sós.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Outono 2008

Celebro com a minha Bud o solestício de Inverno, a capicua, a não existência de tornados e demais catástrofes naturais, o novo dealbar da queda do capitalismo. O céu está fechado e não se podem ler nas estrelas o dia de amanhã. Talvez tenha sido sempre assim e não tenhamos dado conta. Hei-de ir à luta por Edviges ainda que isso me custe o tempo de uma vida. Ou de algumas estações, o que vem a dar no mesmo quando não se sabe quanto tempo temos ou, mais inquietante, quando não se sabe como estaremos nesse tempo. Como o passado anda quase sempre connosco, ensina-nos que ele próprio é uma pedra preciosa quando se transforma no que é. Antes disso vivemos cegos, como as crias que ainda não abriram os olhos, com a violência do presente. Edviges pertence-me e isso é mais certo que toda a improbabilidade, que toda a casuística e dor no universo.

terça-feira, setembro 23, 2008

Depois de Edviges ter deixado cair o meu coração cairam estantes com tudo atrás, rebentaram canos e chão. Caiu óleo negro no sofá, cairam pedaços de dentes da minha boca. Minha. Pus-me em bicos de pés e beijei-lhe a face branca. Branca. Como nenhuma outra face. Edviges deu-me figos. Fechou-me a porta na cara. E saudou-me luminosa na subida para o guindaste no início de um dia claro. Lá em baixo os contentores, à espera que os arrume, que os empilhe, não caem.

sexta-feira, setembro 05, 2008

É o quotidiano, por outro lado, que nos resgata ou ampara. Da morte da sublimação e e da queda de Ìcaro. Esse desenrolar pastoso, certo, ritmado, onde as coisas estão no lugar e não nos é exigido o esforço permanente da dúvida ou do coração. Essa é a força do quotidiano. Protege-nos da morte, da ideia de morte, da ideia de que Edviges chora, da ideia de que as minhas lágrimas vão acabar por esgotar se não secarem em definitivo por estes dias.