Nós e em mim o mesmo espanto. Lança os dedos longos sobre a linha e a agulha vai e vem como se esse movimento já estivesse à espera das mãos que o tornam visível. Edviges respira e eu espanto-me. Queria ficar a olhá-la e às mãos e à agulha muito mais tempo que todos os tecidos por cozer ou cerzir me concedessem. Em mim o espanto e nada mais mexe. Nela a voz doce e mil histórias enquanto as mãos dançam nesse movimento que nos precede, que existe para além de nós e que me traz, em suspensão, irrevogável em face dela.
a tinta, fresca ou nao, pode servir para colorir todos os muros da cidade, do suburbio, clandestina poe a prova mecanismos securitarios disfarcados de liberdade para acabar de vez com ela a_tinta@hotmail.com
segunda-feira, março 16, 2009
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
Passámos para a outra margem debaixo da luz ofuscante. Levámos connosco a fábula pequena que acordou, como eu fazia em criança, em correrias, junto aos canais e aos pássaros e ao sol. Vimos a primeira andorinha a primeira papoila. Suspendemos por momentos o ocaso do dia. E ele veio quase doce. Edviges é uma princesa e eu, aqui no estaleiro do porto. As mãos a ficar rijas.
quinta-feira, janeiro 22, 2009
Ajoelhei-me, inclinei a cabeça para a frente e ela lavou-me, delicada e demoradamente o cabelo. E o cabelo é para mim o princípio do mundo e das suas incertezas. Esperou-me, depois, enquanto me fui despedir de um pedaço de mim, levado para sempre numa caixa de chumbo. Pode o silêncio da pedra ser derrotado com o nosso amor?
sexta-feira, dezembro 05, 2008
quarta-feira, novembro 19, 2008
O sol dourado
Ela escreveu cartas. No quarto murado de um castelo sobre a colina da outra margem. Eram montes na outra margem, três. Longos, como se o corpo de um deus ali caído tivesse deixado o relevo para essoutra margem do nosso rio. As cartas chegaram, algumas, outras ainda as tem o vento que este rio é aqui, não nos podemos esquecer, como um mar. Por isso esta cidade livre. Quem havia de supor que caminhos dourados me esperavam a Oriente.
sexta-feira, novembro 07, 2008
Reparaste que hoje as cores se adensam e crescem em cada coisa que temos diante e em torno de nós? Que o rio tem a cor do mar de Agosto? Mas, da caixinha vidrada do meu guindaste, tem-me ocupado mais o céu. As nuvens de Outubro e de Novembro. Vêm contar-nos histórias todos os dias. Avolumam-se por entre luz e sombra. Entre nós e o azul aí se intrometem e pendem a dizer-nos que não estamos sós.
quarta-feira, outubro 08, 2008
Outono 2008
Celebro com a minha Bud o solestício de Inverno, a capicua, a não existência de tornados e demais catástrofes naturais, o novo dealbar da queda do capitalismo. O céu está fechado e não se podem ler nas estrelas o dia de amanhã. Talvez tenha sido sempre assim e não tenhamos dado conta. Hei-de ir à luta por Edviges ainda que isso me custe o tempo de uma vida. Ou de algumas estações, o que vem a dar no mesmo quando não se sabe quanto tempo temos ou, mais inquietante, quando não se sabe como estaremos nesse tempo. Como o passado anda quase sempre connosco, ensina-nos que ele próprio é uma pedra preciosa quando se transforma no que é. Antes disso vivemos cegos, como as crias que ainda não abriram os olhos, com a violência do presente. Edviges pertence-me e isso é mais certo que toda a improbabilidade, que toda a casuística e dor no universo.
terça-feira, setembro 23, 2008
Depois de Edviges ter deixado cair o meu coração cairam estantes com tudo atrás, rebentaram canos e chão. Caiu óleo negro no sofá, cairam pedaços de dentes da minha boca. Minha. Pus-me em bicos de pés e beijei-lhe a face branca. Branca. Como nenhuma outra face. Edviges deu-me figos. Fechou-me a porta na cara. E saudou-me luminosa na subida para o guindaste no início de um dia claro. Lá em baixo os contentores, à espera que os arrume, que os empilhe, não caem.
sexta-feira, setembro 05, 2008
É o quotidiano, por outro lado, que nos resgata ou ampara. Da morte da sublimação e e da queda de Ìcaro. Esse desenrolar pastoso, certo, ritmado, onde as coisas estão no lugar e não nos é exigido o esforço permanente da dúvida ou do coração. Essa é a força do quotidiano. Protege-nos da morte, da ideia de morte, da ideia de que Edviges chora, da ideia de que as minhas lágrimas vão acabar por esgotar se não secarem em definitivo por estes dias.
terça-feira, setembro 02, 2008
Edviges Fox, rainha dos bretões e às vezes da Escócia, não é rapunzel. Partiu para o outro lado do rio. Hoje umas léguas de espelho prateado. A luz inocente e cálida no fio do horizonte por cima das águas. Do guindaste conseguimos acompanhar os humores deste leito e do céu sobre ele. Descobrimos que tem cinco milhões de anos. Que é coisa pouca na história do mundo. Sabemos que ele corre, na hora em que um homem se abraça a um comboio para a morte, na hora em que Edviges deixa cair o meu coração, em todos os momentos continua a correr. E as mulheres e os homens prosseguem a sua vida. E nós, enganados pela visão sobranceira, adivinhamos que aqui ele possa descansar algumas águas e que a ideia do lago possa suspender, ainda que por breves momentos, a força do quotidiano.
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