sexta-feira, setembro 05, 2008

É o quotidiano, por outro lado, que nos resgata ou ampara. Da morte da sublimação e e da queda de Ìcaro. Esse desenrolar pastoso, certo, ritmado, onde as coisas estão no lugar e não nos é exigido o esforço permanente da dúvida ou do coração. Essa é a força do quotidiano. Protege-nos da morte, da ideia de morte, da ideia de que Edviges chora, da ideia de que as minhas lágrimas vão acabar por esgotar se não secarem em definitivo por estes dias.

terça-feira, setembro 02, 2008

Edviges Fox, rainha dos bretões e às vezes da Escócia, não é rapunzel. Partiu para o outro lado do rio. Hoje umas léguas de espelho prateado. A luz inocente e cálida no fio do horizonte por cima das águas. Do guindaste conseguimos acompanhar os humores deste leito e do céu sobre ele. Descobrimos que tem cinco milhões de anos. Que é coisa pouca na história do mundo. Sabemos que ele corre, na hora em que um homem se abraça a um comboio para a morte, na hora em que Edviges deixa cair o meu coração, em todos os momentos continua a correr. E as mulheres e os homens prosseguem a sua vida. E nós, enganados pela visão sobranceira, adivinhamos que aqui ele possa descansar algumas águas e que a ideia do lago possa suspender, ainda que por breves momentos, a força do quotidiano.

quinta-feira, agosto 21, 2008

No dia seguinte ao meu furto a dona da Figueira veio oferecer-me duas mãos cheias deles. Estes verdadeiramente no ponto. Comi e ofereci. Penso em Rapunzel, tem as tranças cortadas mas uns braços suficientes para me puxar. Conheço tantos começos de estradas, muito maiores que a maioria dos seus caminhos. Atafulhados por tudo menos as silvas e amoras e todos os insectos inesperados que partilham do pó e da água. Caminhos que se vão atravancando de contingências até se transformarem no inferno que os seres humanos tão prodiga e infatigavelmente criam.

terça-feira, agosto 12, 2008

Meu ar fresco

Desci e roubei meia dúzia de figos. Não havia cheiro, só da caca dos gatos que andam por ali à vizinha dará. Mas o sabor. Era o mesmo de todas as fantasias. Abriste a janela para mim. Não sei como nomear-te. Se rainha da Escócia ou dos bretões. Como se pode beijar uma Enid Blyton?

sexta-feira, agosto 08, 2008

Quando vi a tatuagem colorida no fundo das costas de m.l. arrepiei caminho até ao desenlaçe final. Lembrei-me disso quando vi o livro das fadas pousado ao seu lado no outro dia. Imaginei que seria uma nova tatugem e que dali por diante não conseguiria concentrar-me na paixão que me vinha trazendo de passagem pelos dias. A figueira lá em baixo aponta os ramos vigorosamente para o alto. Já há frutos gordos e outros prometendo para breve. O cheiro inunda-nos se formos até à sua sombra. Lembra-se o sabor de todos os verões. Lembra-me uma poema. Lembra-me uma árvore magnífica abandonada. Lembra-me proezas e arranhões. Lembra-me.

domingo, julho 27, 2008

aldeia

Era criança e sentava-me no muro de pedras de granito empilhadas e encaixadas sem qualquer argamassa. Os pés nus pendurados, as uvas doces ao alcance de uma mão, a sombra e o cheiro doce da videira sobre a minha cabeça. Tirava os sapatos mal chegava à aldeia para me juntar às outras crianças. Doía-me, claro. Mas era uma liberdade preciosa. Como a de correr pelos campos de milho, a terra mole afundando-se sob a planta do pé, as folhas cortando-me o pescoço. E corria de novo e havia de correr novamente depois de descansar junto à terra com o céu recortado pelas barbas do milho. Havia de correr sempre enquanto o milho fosse a minha floresta do verão.

quinta-feira, julho 17, 2008

Saímos das minas e subimos ao guindaste. Não voltaremos a ouvir a d. Amélia dizer que o Rui Costa é um senhor. Agora trabalhamos aqui no alto junto ao rio. A visão dele entontece, há dias em que chegamos a supor que desagua para os dois lados. Outros em que imaginamos recifes na outra margem ou Moby Dick saltando junto à proa de um cargueiro. Está calor no alto do guindaste, coloco as mãos sobre os olhos prescruto o azul depois da água para ver se aí vens. Se ainda vens. O que haverá quando vieres.

domingo, julho 06, 2008

O ano da Nêspera

Vieram mais nêsperas, de fora da cidade, mais gordas e sumarentas. Descobrimos também que aqui atrás ficava o Jardim da Nêspera onde hoje palmeiras altas recolhem os pássaros no fim do dia. Queríamos que o verão estacasse nalgum lugar enquanto não chegamos e depois nos desse o braço rumo a qualquer horizonte azul.

quinta-feira, maio 29, 2008

Nêsperas

Andámos a prová-las em várias árvores, tingiram-nos as unhas de negro. Sempre a pensar no poema da nêspera que estava quieta, à espera, e zás. Estavam boas. Tirando as dos ramos mais altos, inatingíveis. É hora de passar a outros frutos, se bem que da cidade não se possa adivinhar quais serão.
A d.Amélia pôs a bandeira das quinas sobre a máquina do café onde nos reunimos às manhãs, antes de entrarmos nas minas em busca de minerais vários. As grutas abrem-se umas a seguir às outras e está tudo aparentemente bem organizado. O tempo tem estado em sintonia connosco. Vário e incerto. Tomara segurar-te na mão para ver se o sol ficava de vez.

domingo, fevereiro 24, 2008

O ritmo frenético das solicitações diárias não deixa espaço nenhum à melancolia, a equipa de Otto sabia o que estava a fazer. Mas, agora, algumas semanas após o regresso, o ritmo das solicitações diárias instalou uma ansiedade miudinha, como a chuva que em momentos súbitos se agudiza inundando tudo e transbordando ribeiras secas há tão pouco tempo.
Dias após ter chegado à cidade encontrei-a mais de 10 anos depois enquanto comprava pão. Também naquele Inverno tinha chovido muito. Penso no que estaremos a fazer se nos encontrarmos mais alguma vez.