Edviges Fox, rainha dos bretões e às vezes da Escócia, não é rapunzel. Partiu para o outro lado do rio. Hoje umas léguas de espelho prateado. A luz inocente e cálida no fio do horizonte por cima das águas. Do guindaste conseguimos acompanhar os humores deste leito e do céu sobre ele. Descobrimos que tem cinco milhões de anos. Que é coisa pouca na história do mundo. Sabemos que ele corre, na hora em que um homem se abraça a um comboio para a morte, na hora em que Edviges deixa cair o meu coração, em todos os momentos continua a correr. E as mulheres e os homens prosseguem a sua vida. E nós, enganados pela visão sobranceira, adivinhamos que aqui ele possa descansar algumas águas e que a ideia do lago possa suspender, ainda que por breves momentos, a força do quotidiano.
a tinta, fresca ou nao, pode servir para colorir todos os muros da cidade, do suburbio, clandestina poe a prova mecanismos securitarios disfarcados de liberdade para acabar de vez com ela a_tinta@hotmail.com
terça-feira, setembro 02, 2008
quinta-feira, agosto 21, 2008
No dia seguinte ao meu furto a dona da Figueira veio oferecer-me duas mãos cheias deles. Estes verdadeiramente no ponto. Comi e ofereci. Penso em Rapunzel, tem as tranças cortadas mas uns braços suficientes para me puxar. Conheço tantos começos de estradas, muito maiores que a maioria dos seus caminhos. Atafulhados por tudo menos as silvas e amoras e todos os insectos inesperados que partilham do pó e da água. Caminhos que se vão atravancando de contingências até se transformarem no inferno que os seres humanos tão prodiga e infatigavelmente criam.
terça-feira, agosto 12, 2008
Meu ar fresco
Desci e roubei meia dúzia de figos. Não havia cheiro, só da caca dos gatos que andam por ali à vizinha dará. Mas o sabor. Era o mesmo de todas as fantasias. Abriste a janela para mim. Não sei como nomear-te. Se rainha da Escócia ou dos bretões. Como se pode beijar uma Enid Blyton?
sexta-feira, agosto 08, 2008
Quando vi a tatuagem colorida no fundo das costas de m.l. arrepiei caminho até ao desenlaçe final. Lembrei-me disso quando vi o livro das fadas pousado ao seu lado no outro dia. Imaginei que seria uma nova tatugem e que dali por diante não conseguiria concentrar-me na paixão que me vinha trazendo de passagem pelos dias. A figueira lá em baixo aponta os ramos vigorosamente para o alto. Já há frutos gordos e outros prometendo para breve. O cheiro inunda-nos se formos até à sua sombra. Lembra-se o sabor de todos os verões. Lembra-me uma poema. Lembra-me uma árvore magnífica abandonada. Lembra-me proezas e arranhões. Lembra-me.
domingo, julho 27, 2008
aldeia
Era criança e sentava-me no muro de pedras de granito empilhadas e encaixadas sem qualquer argamassa. Os pés nus pendurados, as uvas doces ao alcance de uma mão, a sombra e o cheiro doce da videira sobre a minha cabeça. Tirava os sapatos mal chegava à aldeia para me juntar às outras crianças. Doía-me, claro. Mas era uma liberdade preciosa. Como a de correr pelos campos de milho, a terra mole afundando-se sob a planta do pé, as folhas cortando-me o pescoço. E corria de novo e havia de correr novamente depois de descansar junto à terra com o céu recortado pelas barbas do milho. Havia de correr sempre enquanto o milho fosse a minha floresta do verão.
quinta-feira, julho 17, 2008
Saímos das minas e subimos ao guindaste. Não voltaremos a ouvir a d. Amélia dizer que o Rui Costa é um senhor. Agora trabalhamos aqui no alto junto ao rio. A visão dele entontece, há dias em que chegamos a supor que desagua para os dois lados. Outros em que imaginamos recifes na outra margem ou Moby Dick saltando junto à proa de um cargueiro. Está calor no alto do guindaste, coloco as mãos sobre os olhos prescruto o azul depois da água para ver se aí vens. Se ainda vens. O que haverá quando vieres.
domingo, julho 06, 2008
O ano da Nêspera
Vieram mais nêsperas, de fora da cidade, mais gordas e sumarentas. Descobrimos também que aqui atrás ficava o Jardim da Nêspera onde hoje palmeiras altas recolhem os pássaros no fim do dia. Queríamos que o verão estacasse nalgum lugar enquanto não chegamos e depois nos desse o braço rumo a qualquer horizonte azul.
quinta-feira, maio 29, 2008
Nêsperas
Andámos a prová-las em várias árvores, tingiram-nos as unhas de negro. Sempre a pensar no poema da nêspera que estava quieta, à espera, e zás. Estavam boas. Tirando as dos ramos mais altos, inatingíveis. É hora de passar a outros frutos, se bem que da cidade não se possa adivinhar quais serão.
A d.Amélia pôs a bandeira das quinas sobre a máquina do café onde nos reunimos às manhãs, antes de entrarmos nas minas em busca de minerais vários. As grutas abrem-se umas a seguir às outras e está tudo aparentemente bem organizado. O tempo tem estado em sintonia connosco. Vário e incerto. Tomara segurar-te na mão para ver se o sol ficava de vez.
A d.Amélia pôs a bandeira das quinas sobre a máquina do café onde nos reunimos às manhãs, antes de entrarmos nas minas em busca de minerais vários. As grutas abrem-se umas a seguir às outras e está tudo aparentemente bem organizado. O tempo tem estado em sintonia connosco. Vário e incerto. Tomara segurar-te na mão para ver se o sol ficava de vez.
domingo, fevereiro 24, 2008
O ritmo frenético das solicitações diárias não deixa espaço nenhum à melancolia, a equipa de Otto sabia o que estava a fazer. Mas, agora, algumas semanas após o regresso, o ritmo das solicitações diárias instalou uma ansiedade miudinha, como a chuva que em momentos súbitos se agudiza inundando tudo e transbordando ribeiras secas há tão pouco tempo.
Dias após ter chegado à cidade encontrei-a mais de 10 anos depois enquanto comprava pão. Também naquele Inverno tinha chovido muito. Penso no que estaremos a fazer se nos encontrarmos mais alguma vez.
Dias após ter chegado à cidade encontrei-a mais de 10 anos depois enquanto comprava pão. Também naquele Inverno tinha chovido muito. Penso no que estaremos a fazer se nos encontrarmos mais alguma vez.
segunda-feira, janeiro 14, 2008
Otto chamou-me para um encontro muito rápido e disse-me, de forma clínica, que teria de abandonar a montanha sob pena do agravamento dos níveis aceitáveis de melancolia. Disse-me ainda que neste Inverno a neve iria sitiar algumas casas e muito provavelmente o hospital, deixando-o privado de contactos possíveis com o exterior.
Tentei uma aproximação táctica em torno dos aspectos puramente ideológicos e políticos dos perigos da melancolia acentuada. Otto olhou-me de lado a lado como se eu me tivesse tornado transparente e mantendo-se assim, dirigido a um interlocutor para lá de nós mesmos, levantou-se e concluiu desta forma a nossa consulta-A melancolia acentuada é crónica e pode custar-lhe a vida.
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