quinta-feira, julho 17, 2008

Saímos das minas e subimos ao guindaste. Não voltaremos a ouvir a d. Amélia dizer que o Rui Costa é um senhor. Agora trabalhamos aqui no alto junto ao rio. A visão dele entontece, há dias em que chegamos a supor que desagua para os dois lados. Outros em que imaginamos recifes na outra margem ou Moby Dick saltando junto à proa de um cargueiro. Está calor no alto do guindaste, coloco as mãos sobre os olhos prescruto o azul depois da água para ver se aí vens. Se ainda vens. O que haverá quando vieres.

domingo, julho 06, 2008

O ano da Nêspera

Vieram mais nêsperas, de fora da cidade, mais gordas e sumarentas. Descobrimos também que aqui atrás ficava o Jardim da Nêspera onde hoje palmeiras altas recolhem os pássaros no fim do dia. Queríamos que o verão estacasse nalgum lugar enquanto não chegamos e depois nos desse o braço rumo a qualquer horizonte azul.

quinta-feira, maio 29, 2008

Nêsperas

Andámos a prová-las em várias árvores, tingiram-nos as unhas de negro. Sempre a pensar no poema da nêspera que estava quieta, à espera, e zás. Estavam boas. Tirando as dos ramos mais altos, inatingíveis. É hora de passar a outros frutos, se bem que da cidade não se possa adivinhar quais serão.
A d.Amélia pôs a bandeira das quinas sobre a máquina do café onde nos reunimos às manhãs, antes de entrarmos nas minas em busca de minerais vários. As grutas abrem-se umas a seguir às outras e está tudo aparentemente bem organizado. O tempo tem estado em sintonia connosco. Vário e incerto. Tomara segurar-te na mão para ver se o sol ficava de vez.

domingo, fevereiro 24, 2008

O ritmo frenético das solicitações diárias não deixa espaço nenhum à melancolia, a equipa de Otto sabia o que estava a fazer. Mas, agora, algumas semanas após o regresso, o ritmo das solicitações diárias instalou uma ansiedade miudinha, como a chuva que em momentos súbitos se agudiza inundando tudo e transbordando ribeiras secas há tão pouco tempo.
Dias após ter chegado à cidade encontrei-a mais de 10 anos depois enquanto comprava pão. Também naquele Inverno tinha chovido muito. Penso no que estaremos a fazer se nos encontrarmos mais alguma vez.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Otto chamou-me para um encontro muito rápido e disse-me, de forma clínica, que teria de abandonar a montanha sob pena do agravamento dos níveis aceitáveis de melancolia. Disse-me ainda que neste Inverno a neve iria sitiar algumas casas e muito provavelmente o hospital, deixando-o privado de contactos possíveis com o exterior.
Tentei uma aproximação táctica em torno dos aspectos puramente ideológicos e políticos dos perigos da melancolia acentuada. Otto olhou-me de lado a lado como se eu me tivesse tornado transparente e mantendo-se assim, dirigido a um interlocutor para lá de nós mesmos, levantou-se e concluiu desta forma a nossa consulta-A melancolia acentuada é crónica e pode custar-lhe a vida.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Um dia chegou uma nova equipa de cientistas. Vinham agasalhados como para as calotes polares. Ao princípio pensámos que fossem turistas para o esqui e estranhámos não saberem que a neve andava instável. Em muito pouco tempo alteraram a bonomia do nosso hospital de campanha/montanha. Agitaram as áleas, os corredores, organizaram vários exames individuais médicos a todos os hóspedes e depois um conjunto de conferências para apresentar e comparar resultados. A equipa médica residente estava vencida, vacilando logo nos primeiros rounds. Tudo isto terminou, como alguns temiam, na mudança dos diagnósticos e prescrições. Ou, no dizer de Otto Springlers, no aperfeiçoamento e aprofundamento do diagnóstico.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Aproximadamente um ano a esta parte encontrei S. na beira do rio. Hoje, a esta distância e neste lugar julgo que adoeci por ter abandonado, não por querer mas porque a vida me desobrigou, com a garganta seca aquele lugar, onde ainda veio a balouçar um sorriso teu. Ficou preso à margem, sem conseguir que eu o desamarrasse. Vogando sobre as ondas quase inanimadas, no mesmo lugar. É aí que o encontro, faz-me lembrar o primeiro e um poema do O`Neill.
Aqui podíamos entregar-nos a toda a sorte de pensamentos. A melancolia era permitida, incentivada, reconfortante. Não havia gente a fingir-se feliz e isso, só por si, já era uma enorme felicidade.
Havia o receio de que os rigores do Inverno pudessem isolar a montanha e deixar-nos com menos mantimentos ainda do que a quantidade parca que nos anunciava desde o Verão o agudizar da crise. De qualquer forma tirando um ou outro a tranquilidade do hospital era inquebrável como se um grande urso fizesse os preparativos para o magnífico sono
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quinta-feira, novembro 15, 2007

Para além da caspa e de alguma melancolia persistente os exames não detectaram, até
agora, mais nada. O tratamento deve ser feito aqui e como, lá em baixo,
na cidade, pouco nos espera, aguardamos os bons resultados da prescrição
de Outono. Claro que há passeios que se podem fazer. Organizados ou improvisados, em grupo ou isoladamente. Basta que não nos afastemos muito da altitude e dos ares da Montanha, componente imprescindível do tratamento. Também seria difícil afastar-mo-nos tal é a distância que nos separa das últimas aldeias do sopé.

sexta-feira, outubro 26, 2007

montanha

E aí estávamos, comendo aqueles bolos de arroz com a pasta negra das sementes de girassol desfazendo-se num óleo viscoso e falando de ti entre as passas de um cigarro de mentol. Eram momentos possíveis neste sítio improvável. Como se fosse possível ter chegado a um lugar onde pudéssemos abandonar em permanência a violência do quotodiano. Não um espaço de fantasia mas o espaço em que o tempo não nos viesse inquietar.
Ali estávamos, tão soberanos de nós como qualquer escravo, e, ainda assim, com a mortalidade a espreitar-nos à esquina, num barulho de gato ao respirar, numa articulação mais rija do frio, ainda assim, nesta liberdade por entre sombras, estávamos experimentando a doçura de não pertencer realmente a este mundo. Nem a qualquer outro

quinta-feira, outubro 11, 2007

Decidimos ficar pelo acampamento onde se misturavam alguns doentes, alguns curadores e aquela espécie de seres humanos que acreditam ser sua missão levar a palavra de deus aos outros. A luz de Lisboa nesta altura do ano não é a que gosto mais e na cidade só encontrava testemunhas de Jeová. Desconhecendo a nossa verdadeira doença ficámos como Hans Castorp.