quinta-feira, novembro 15, 2007

Para além da caspa e de alguma melancolia persistente os exames não detectaram, até
agora, mais nada. O tratamento deve ser feito aqui e como, lá em baixo,
na cidade, pouco nos espera, aguardamos os bons resultados da prescrição
de Outono. Claro que há passeios que se podem fazer. Organizados ou improvisados, em grupo ou isoladamente. Basta que não nos afastemos muito da altitude e dos ares da Montanha, componente imprescindível do tratamento. Também seria difícil afastar-mo-nos tal é a distância que nos separa das últimas aldeias do sopé.

sexta-feira, outubro 26, 2007

montanha

E aí estávamos, comendo aqueles bolos de arroz com a pasta negra das sementes de girassol desfazendo-se num óleo viscoso e falando de ti entre as passas de um cigarro de mentol. Eram momentos possíveis neste sítio improvável. Como se fosse possível ter chegado a um lugar onde pudéssemos abandonar em permanência a violência do quotodiano. Não um espaço de fantasia mas o espaço em que o tempo não nos viesse inquietar.
Ali estávamos, tão soberanos de nós como qualquer escravo, e, ainda assim, com a mortalidade a espreitar-nos à esquina, num barulho de gato ao respirar, numa articulação mais rija do frio, ainda assim, nesta liberdade por entre sombras, estávamos experimentando a doçura de não pertencer realmente a este mundo. Nem a qualquer outro

quinta-feira, outubro 11, 2007

Decidimos ficar pelo acampamento onde se misturavam alguns doentes, alguns curadores e aquela espécie de seres humanos que acreditam ser sua missão levar a palavra de deus aos outros. A luz de Lisboa nesta altura do ano não é a que gosto mais e na cidade só encontrava testemunhas de Jeová. Desconhecendo a nossa verdadeira doença ficámos como Hans Castorp.

terça-feira, outubro 09, 2007

O sal todo do verão invadiu as artérias e a correntes sanguínea deixando-nos exaustos. Esperámos o pronto-socorro. Recuperamos agora do mau colestrol num hospital de campanha. Há muitos aviões e poucos alimentos. O arroz lembra-nos a Birmânia. Ser um daqueles monges é também um bom caminho para fugir à fome. Como era ir para padre há pouco mais que uma geração.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Como o verão puxa mais pelos salgados o meu coração transformou-se numa batata frita de pacote.

sexta-feira, julho 20, 2007

Fizemo-nos inquietos, sim, talvez irremediavelmente. Será tarde para encontrar uma casa? Será tarde para pertencer à cidade? Nela também se agitaram as árvores naqueles dias de ventania. Sabemos porque veio o vento, foi para não deixar nada no lugar.

segunda-feira, julho 09, 2007

o alperce

O fruto caiu do ramo e acertou-me num olho. Quem me manda estar a olhar para o céu quando há tanto que me ocupa aqui na terra?

sexta-feira, julho 06, 2007

A menina romã transformou-se num alperce.
É preciso regressar rapidamente à cidade.

quarta-feira, julho 04, 2007

Seguimos junto ao carril com as ervas altas a roçar-nos as pernas brancas do Inverno. Se é uma viagem há que prosseguir. E, se o cansaço chegar, permitimos-lhe algum tempo mas não o suficiente para nos pormos a duvidar. Tantas dúvidas hão-de fazer soçobrar-nos a moral, quando não for a espinha.
Sabíamos que com o cheiro da terra seca e quente do final do dia, havia de vir também, ao longe, o som mais ou menos indistinto, mais ou menos roufenho dos concertos. Espalhados pelo verão pelas aldeias. A melancolia desses dias futuros inspirava-nos e precipitava em nós o desejo de abandonar a cidade crivada de sons mais distintos e menos roufenhos. Espalhados pelo verão nas varandas dos imigrantes ou dos pobres.

segunda-feira, junho 25, 2007

É uma viagem, seja como for. Agora detemo-nos mais em apeadeiros e plataformas abandonadas às moscas do verão. Há ervas que crescem junto ao carril. Seguimo-lo até à orla mais próxima ou ficamos a balançar os pés no muro da estação?