sexta-feira, outubro 26, 2007

montanha

E aí estávamos, comendo aqueles bolos de arroz com a pasta negra das sementes de girassol desfazendo-se num óleo viscoso e falando de ti entre as passas de um cigarro de mentol. Eram momentos possíveis neste sítio improvável. Como se fosse possível ter chegado a um lugar onde pudéssemos abandonar em permanência a violência do quotodiano. Não um espaço de fantasia mas o espaço em que o tempo não nos viesse inquietar.
Ali estávamos, tão soberanos de nós como qualquer escravo, e, ainda assim, com a mortalidade a espreitar-nos à esquina, num barulho de gato ao respirar, numa articulação mais rija do frio, ainda assim, nesta liberdade por entre sombras, estávamos experimentando a doçura de não pertencer realmente a este mundo. Nem a qualquer outro

quinta-feira, outubro 11, 2007

Decidimos ficar pelo acampamento onde se misturavam alguns doentes, alguns curadores e aquela espécie de seres humanos que acreditam ser sua missão levar a palavra de deus aos outros. A luz de Lisboa nesta altura do ano não é a que gosto mais e na cidade só encontrava testemunhas de Jeová. Desconhecendo a nossa verdadeira doença ficámos como Hans Castorp.

terça-feira, outubro 09, 2007

O sal todo do verão invadiu as artérias e a correntes sanguínea deixando-nos exaustos. Esperámos o pronto-socorro. Recuperamos agora do mau colestrol num hospital de campanha. Há muitos aviões e poucos alimentos. O arroz lembra-nos a Birmânia. Ser um daqueles monges é também um bom caminho para fugir à fome. Como era ir para padre há pouco mais que uma geração.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Como o verão puxa mais pelos salgados o meu coração transformou-se numa batata frita de pacote.

sexta-feira, julho 20, 2007

Fizemo-nos inquietos, sim, talvez irremediavelmente. Será tarde para encontrar uma casa? Será tarde para pertencer à cidade? Nela também se agitaram as árvores naqueles dias de ventania. Sabemos porque veio o vento, foi para não deixar nada no lugar.

segunda-feira, julho 09, 2007

o alperce

O fruto caiu do ramo e acertou-me num olho. Quem me manda estar a olhar para o céu quando há tanto que me ocupa aqui na terra?

sexta-feira, julho 06, 2007

A menina romã transformou-se num alperce.
É preciso regressar rapidamente à cidade.

quarta-feira, julho 04, 2007

Seguimos junto ao carril com as ervas altas a roçar-nos as pernas brancas do Inverno. Se é uma viagem há que prosseguir. E, se o cansaço chegar, permitimos-lhe algum tempo mas não o suficiente para nos pormos a duvidar. Tantas dúvidas hão-de fazer soçobrar-nos a moral, quando não for a espinha.
Sabíamos que com o cheiro da terra seca e quente do final do dia, havia de vir também, ao longe, o som mais ou menos indistinto, mais ou menos roufenho dos concertos. Espalhados pelo verão pelas aldeias. A melancolia desses dias futuros inspirava-nos e precipitava em nós o desejo de abandonar a cidade crivada de sons mais distintos e menos roufenhos. Espalhados pelo verão nas varandas dos imigrantes ou dos pobres.

segunda-feira, junho 25, 2007

É uma viagem, seja como for. Agora detemo-nos mais em apeadeiros e plataformas abandonadas às moscas do verão. Há ervas que crescem junto ao carril. Seguimo-lo até à orla mais próxima ou ficamos a balançar os pés no muro da estação?

sábado, junho 09, 2007

Vou sair. Ter com Santo António. Não é que queira casar mas encontrar um milagre que resulte por estes dias.A minha pele está fora de sítio. Sinto-a, desconfortável, despegada aqui e ali, as comichões.A luz começa a ficar abrupta e impiedosa a partir desta altura. Por isso a cidade se esvazia. Aos poucos.
Boris já nao bebe a cerveja checa, o dinheiro mal dá para as portuguesas. Está a tentar escolher ou perceber se a vida é odisseia ou peregrinação.