terça-feira, junho 07, 2005

madrugada

É difícil encontrar horas quietas. Em que nem as folhas das árvores se agitem apesar de um sopro ligeiro vir bater-me no rosto. Nessas horas é possível ludibriar o tempo, ou a ilusão dele, e ficar inteiramente no aqui, no presente.

sexta-feira, maio 20, 2005

reconheço que a história da caixa tem tanto interesse como descrever o movimento circular das moscas no (quase) verão. Sei que agora é tempo de regar mais as plantas(que este ano floriram todas cá dentro) e de nos protegermos do sol flagrante.

domingo, maio 08, 2005

Tinha uma caixa especial. Tinha-a há tantos anos que perdi a conta à sua origem. Era uma caixa de cartão diferente de todas as outras. Chegou e partiu-me a caixa, não de uma vez só mas uma destruição lenta e continuada. Podia ter partido os pirex e as louças todas da cozinha. Tudo o que era de vidro e tinha valor já foi aliás. Mas não, resolveu destruir a caixa de cartão diferente de todas as caixas e que estava comigo há tanto tanto. Os objectos que sobrevivem mais de uma década sendo-nos próximos e úteis passam a insubstituíveis. Misturaram-se na nossa vida a ponto de se misturarem connosco. Alguém tocar-lhes e fazê-los úteis para si mesmo é igual a tocar-nos. Alguém destruí-los é o mesmo que entrar e destruir-nos um pouco. Principalmente quando não se entende isso.

quinta-feira, maio 05, 2005

sexta-feira, abril 29, 2005

adeus contador de visitas

o blogpatrool abandonou-nos e ficamos sem registo do esforço lento desse contador, não saber se nos ouvem entrava o falar mas lança-nos num novo discurso orgulhoso. Orgulhosamente sós como dizia o velho sebento. (se não era um dos sete pecados mortais devia)

sábado, março 19, 2005

Antes da Primavera

Há alturas em que, ou por tomarmos um bom medicamento que nos arranca à febre dos últimos dias, ou porque sem ela ficamos despidos da última desculpa, tudo se detém e sabemos que algo nos aguarda, algo espera por nós impreterível e forçosamente. Pode ser um enigma antigo, pode ser o mesmo de todos os dias mas sentido de forma mais evidente. Difícil perceber mas há alturas, como esta, que têm de ser desmascaradas e resolvidas.
Posso procurar bem a música que quero ouvir e ainda assim não ser o suficiente. Parece que não existe, ou se existe, impossível dar com ela. Talvez tenha de a encontrar fora daqui. Faltam coisas a esta sala para que eu a habite com o à vontade e a familiariedade necessárias. O que fazer para que uma pessoa não seja estranha entre estes estranhos objectos? Ou estranha disposição de objectos. Será por aqui o caminho à pergunta original? Ou é mais uma desculpa, mais elaborada que uma gripe persistente?

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Quando acordo surpreendo-me, nem que seja num milionésimo infinitisimal de segundo. Agora surpreendo-me também quando vejo os teus olhos, ou quando sinto o teu corpo. Mais um milionésimo (este mais longo). Se ficarmos juntos perderei esta surpresa no tempo?

segunda-feira, janeiro 24, 2005

demasiado corpo

Já não bastava ter um coração gigante a bombear-me no peito. Agora adormeço rápida e bruscamente deixando acordadas as respirações de assassinos. É possível viver com assassinos. Que eles tenham vivido sempre junto a nós. Numa manhã descobrimos os seus crimes e sabemos que é demasiado tarde para nós próprios. Pômo-nos a chorar, de pena própria ou alheia. Principalmente por não sabermos fazer nada, nem parar o crime-isto porque se pode assassinar alguém durante muito tempo-nem mudar ou ajudar o criminoso-afinal vivemos sempre com ele-nem passar a adormeçer lentamente sossegando o coração gigante.

terça-feira, novembro 23, 2004

o mural

a tinta parece ter secado, como os murais antigos onde colaram cartazes do circo cardinalli o natal passado e por cima deles a vinda do dalai lama e depois os outros cartazes que foram encarquilhando, descorando, secando da chuva ao sol. Mas como caiar a parede com dois corações aqui dentro. Este bombear no peito, este sangue veloz, ensurdecem-me de alegria.

sábado, novembro 06, 2004