sexta-feira, janeiro 28, 2005

Quando acordo surpreendo-me, nem que seja num milionésimo infinitisimal de segundo. Agora surpreendo-me também quando vejo os teus olhos, ou quando sinto o teu corpo. Mais um milionésimo (este mais longo). Se ficarmos juntos perderei esta surpresa no tempo?

segunda-feira, janeiro 24, 2005

demasiado corpo

Já não bastava ter um coração gigante a bombear-me no peito. Agora adormeço rápida e bruscamente deixando acordadas as respirações de assassinos. É possível viver com assassinos. Que eles tenham vivido sempre junto a nós. Numa manhã descobrimos os seus crimes e sabemos que é demasiado tarde para nós próprios. Pômo-nos a chorar, de pena própria ou alheia. Principalmente por não sabermos fazer nada, nem parar o crime-isto porque se pode assassinar alguém durante muito tempo-nem mudar ou ajudar o criminoso-afinal vivemos sempre com ele-nem passar a adormeçer lentamente sossegando o coração gigante.

terça-feira, novembro 23, 2004

o mural

a tinta parece ter secado, como os murais antigos onde colaram cartazes do circo cardinalli o natal passado e por cima deles a vinda do dalai lama e depois os outros cartazes que foram encarquilhando, descorando, secando da chuva ao sol. Mas como caiar a parede com dois corações aqui dentro. Este bombear no peito, este sangue veloz, ensurdecem-me de alegria.

sábado, novembro 06, 2004

terça-feira, outubro 12, 2004

não abandoneis vossos postos

A cidade aquietou-se. Sosseguei-me nela. O Outono é a melhor altura para fazer as pazes. Passei a acordar para descobrir a tonalidade do céu. É possível encontrar-lhe novidades. Retoma-se a vida num ponto qualquer, ainda indistinto. Cheio daquilo que fomos depositando de querer ao longo do tempo. Ainda que diste daqui parece vir buscar-nos ou lembrar-nos que existe,com a mesma força do quotidiano.

terça-feira, setembro 21, 2004

Setembro outra vez

Basta o café ser mau para o refresco não prestar. A cidade continua nauseabunda, os seus cheiros encostam-me à parede. O tempo deixou de vir às golfadas conhecidas, algo misterioso o interrompeu. Não sei se é agora que o universo passa a ter o meu ritmo, se continuo a segui-lo.
Não sabemos, muitas vezes, como aqui chegámos, sabemos que aqui estamos, de quando em quando, quando a realidade nos atravessa a estrada e nos encosta à berma. Depois, se prosseguissemos como os restantes animais, dormindo, comendo, lambendo as feridas. Não, os homens não continuam, basta retirar-lhes o hábito ou a esperança. Passam a dormir mais ou menos do que precisam, a comer mais ou menos do que precisam, deixam de lamber as feridas.

segunda-feira, setembro 06, 2004

sinto-me num país estrangeiro, numa cidade que não conheço, as esquinas familiares como numa fotografia são como uma estação de rádio qualquer em playlist contínua. A luz congelou as sombras e apesar do amanhecer e anoitecer fiquei ali. Em nenhures.

sexta-feira, agosto 27, 2004

A linguagem

Este é meu primeiro post não imediato. Só para experimentar da estranheza da escrita em papel, prévia, que contraria a sensação de perigo, sem mediações, da folha virtual, on line. Escrever fora da linha é, assim, uma forma de traição a esse(este)espaço que vive ou respira de formas e propósitos novos. Comunicação anti-perene, assente numa matéria (suporte) que não desdobramos, não sentimos, não controlamos apesar do código ser(aparentemente) o mesmo. A gravura paleolítica não era também determinada pela pedra? O utensílio, o papiro, o bambu, o estilete são também a forma e daqui a ideia. O que é um caracter chinês?
Que códigos despontarão destas ciber bandas largas de bytes? Que força terá o papel quando olhamos para o ecran em branco? A mesma que as árvores balouçando numa janela aberta ao lado do monitor. E o futuro questionará dedo e dígito procurando saber quem antecedeu quem (em correntes pouco dialécticas)