terça-feira, novembro 23, 2004

o mural

a tinta parece ter secado, como os murais antigos onde colaram cartazes do circo cardinalli o natal passado e por cima deles a vinda do dalai lama e depois os outros cartazes que foram encarquilhando, descorando, secando da chuva ao sol. Mas como caiar a parede com dois corações aqui dentro. Este bombear no peito, este sangue veloz, ensurdecem-me de alegria.

sábado, novembro 06, 2004

terça-feira, outubro 12, 2004

não abandoneis vossos postos

A cidade aquietou-se. Sosseguei-me nela. O Outono é a melhor altura para fazer as pazes. Passei a acordar para descobrir a tonalidade do céu. É possível encontrar-lhe novidades. Retoma-se a vida num ponto qualquer, ainda indistinto. Cheio daquilo que fomos depositando de querer ao longo do tempo. Ainda que diste daqui parece vir buscar-nos ou lembrar-nos que existe,com a mesma força do quotidiano.

terça-feira, setembro 21, 2004

Setembro outra vez

Basta o café ser mau para o refresco não prestar. A cidade continua nauseabunda, os seus cheiros encostam-me à parede. O tempo deixou de vir às golfadas conhecidas, algo misterioso o interrompeu. Não sei se é agora que o universo passa a ter o meu ritmo, se continuo a segui-lo.
Não sabemos, muitas vezes, como aqui chegámos, sabemos que aqui estamos, de quando em quando, quando a realidade nos atravessa a estrada e nos encosta à berma. Depois, se prosseguissemos como os restantes animais, dormindo, comendo, lambendo as feridas. Não, os homens não continuam, basta retirar-lhes o hábito ou a esperança. Passam a dormir mais ou menos do que precisam, a comer mais ou menos do que precisam, deixam de lamber as feridas.

segunda-feira, setembro 06, 2004

sinto-me num país estrangeiro, numa cidade que não conheço, as esquinas familiares como numa fotografia são como uma estação de rádio qualquer em playlist contínua. A luz congelou as sombras e apesar do amanhecer e anoitecer fiquei ali. Em nenhures.

sexta-feira, agosto 27, 2004

A linguagem

Este é meu primeiro post não imediato. Só para experimentar da estranheza da escrita em papel, prévia, que contraria a sensação de perigo, sem mediações, da folha virtual, on line. Escrever fora da linha é, assim, uma forma de traição a esse(este)espaço que vive ou respira de formas e propósitos novos. Comunicação anti-perene, assente numa matéria (suporte) que não desdobramos, não sentimos, não controlamos apesar do código ser(aparentemente) o mesmo. A gravura paleolítica não era também determinada pela pedra? O utensílio, o papiro, o bambu, o estilete são também a forma e daqui a ideia. O que é um caracter chinês?
Que códigos despontarão destas ciber bandas largas de bytes? Que força terá o papel quando olhamos para o ecran em branco? A mesma que as árvores balouçando numa janela aberta ao lado do monitor. E o futuro questionará dedo e dígito procurando saber quem antecedeu quem (em correntes pouco dialécticas)

segunda-feira, julho 19, 2004

nada mais será como dantes

num relance rápido perto do teatro onde trabalha, descubro quem num relance lento numa imagem da tv reflectida no espelho do único café possível no mundo, aquele onde nos sentávamos sem nenhum tempo que não o nosso,  me descobriu entre diálogos mudos de telenovela, e há dias nesse relance confirmado pelo retrovisor descubro que a juba voluptuosa vermelha tinha abandonado a caçadora que, muito antes da telenovela, eu havia descoberto. Que desfaçatez . Foi pior que vê-la a beijar a Isabelle Huppert.



quinta-feira, julho 01, 2004