Morremos por estarmos a mais
e estar a mais é ir morrendo em cada dia
Estar a mais é não ser o que se é ou não poder ser
e ser a hesitação de quem perdeu o rumo
e gira em torno da sua própria ausência
Mas ninguém comete o erro de não ser quem é
porque a sua identidade é o limite instransponível
de uma consciência e por mais que se extravie
está sempre no seu círculo irregovável
Assim o homem é quem é e quem não é
e entre estes contrários a tensão é insustentável
o que faz exceder-se e ser a mais
Ele terá sentido alguma vez que iria descobrir um tesouro
[oculto
e tê-lo-á procurado num armário ou atrás da porta
mas um violento jacto negro terá irrompido e ter-lhe-á cegado
[os olhos
António Ramos Rosa
a tinta, fresca ou nao, pode servir para colorir todos os muros da cidade, do suburbio, clandestina poe a prova mecanismos securitarios disfarcados de liberdade para acabar de vez com ela a_tinta@hotmail.com
sexta-feira, novembro 07, 2003
terça-feira, novembro 04, 2003
ANTI-ÉCLOGA
A verdade é que também as urtigas
me aborrecem. Esta doçura dos pássaros,
a silvestre quietude da tarde atravessada
pelo balido das ovelhas, grandes imitadoras
de Edith Piaf, tudo isso não chega a ser
tão daninho como a luz de um semáforo
vermelho, mas um pouco de sangue
na biqueira do sapato faz-me falta.
Faz-me falta praguejar, ter um lago
de cimento onde cuspir, obstáculos
de fogo, fantasias, a metralha dos calinos.
Não me sinto nada bem com a doçura,
com a paz dos ermitérios, de onde Deus
se retirou há quinze anos. Esta resignação
das árvores, dos faunos, das silvanas,
da restante bicharada típica dos lugares
onde sofrer é natural como estar só,
a conclusão é que não sei caminhar sem sapatos
que me apertem. As sandálias do pescador,
as botas do alpinsta, não me levam
a lado nenhum. Detesto confessá-lo
mas eu sou cidade até à raíz do terror.
José Miguel Silva
A verdade é que também as urtigas
me aborrecem. Esta doçura dos pássaros,
a silvestre quietude da tarde atravessada
pelo balido das ovelhas, grandes imitadoras
de Edith Piaf, tudo isso não chega a ser
tão daninho como a luz de um semáforo
vermelho, mas um pouco de sangue
na biqueira do sapato faz-me falta.
Faz-me falta praguejar, ter um lago
de cimento onde cuspir, obstáculos
de fogo, fantasias, a metralha dos calinos.
Não me sinto nada bem com a doçura,
com a paz dos ermitérios, de onde Deus
se retirou há quinze anos. Esta resignação
das árvores, dos faunos, das silvanas,
da restante bicharada típica dos lugares
onde sofrer é natural como estar só,
a conclusão é que não sei caminhar sem sapatos
que me apertem. As sandálias do pescador,
as botas do alpinsta, não me levam
a lado nenhum. Detesto confessá-lo
mas eu sou cidade até à raíz do terror.
José Miguel Silva
terça-feira, outubro 28, 2003
eis que o frio se instala e mudamos a hora a correr para que ele não nos surpreenda na manhã escura. Não fossem estes ossos e seria um tempo ideal. Não fosse tanta outra coisa e seria esta uma vida ideal. Se fecharmos os olhos às televisões ficamos mais próximos. Depois é preciso abrir os olhos ao resto.
terça-feira, outubro 21, 2003
sábado, outubro 18, 2003
de novo, aqui, nesta cidade meiga onde o granito nos aproxima, onde as pessoas não estão tão dispersas, nesta cidade de saudades, das cores das fachadas, que pena não viver aqui, não morar, nem aqui nem em lado nenhum, apesar daqui ser tão longe do berço e daqueles que me faltam, mas aqui tão mais fácil, tão mais convidativa esta pedra escura que aquece a serra mais fria que se aproxime.
Não creio que fossemos feitos para estar sempre no mesmo lugar.
Não creio que fossemos feitos para estar sempre no mesmo lugar.
segunda-feira, outubro 13, 2003
a casualidade, ou não, da nossa existência neste tempo e a coincidência da contemporaneidade de todos, para além de nos unir no acaso solar, já há algo de importante que temos em comum, estarmos vivos ao mesmo tempo, pode ser também um azar ou uma sorte do caneco, se antes se trabalhava -a grande maioria- de sol a sol, já não seremos os afortunados quando chegar o fim-de-semana de três e depois quatro e depois cinco dias. O acaso pode aceitar-se só para o aparecimento aleatório no século XX, XV, XXX, ou I24ªera, e não já para o facto de termos de trabalhar ou não. Provavelmente o nosso fim-de-semana tem 2 dias porque não merecemos mais e/ou não sabemos que fazer dele quando ultrapasse esse tempo. Ainda não há tempo livre há só tempo de descanso do trabalho. E não o contrário porque nascemos precisamente no tempo(histórico,humano) da escravidão. O trabalho libertará quando for escolhido. Serão outros a fazê-lo, não só porque nascerão em tempo diferente mas porque terão de ser diferentes. Mas não serão diferentes, nada deles será se não formos nós a soltar os estertores da miséria, se não tornarmos produtiva a cólera do síndrome de segunda-feira.
quarta-feira, outubro 08, 2003
"a blogmania é?
inventividade democrática?
desconfiança em relação aos outros meios de comunicação?
a sociedade do conforto onde o sofá trocado pela cadeira e os amigos pelo teclado?
a sociedade invidualista?
um país de poetas e das letras?
sinal de que não gostamos do que fazemos?
incapacidade de fazermos/fazer?
a solidão do subúrbio?
tudo isto,
ou, nada disto?"
Tinta ecológica
inventividade democrática?
desconfiança em relação aos outros meios de comunicação?
a sociedade do conforto onde o sofá trocado pela cadeira e os amigos pelo teclado?
a sociedade invidualista?
um país de poetas e das letras?
sinal de que não gostamos do que fazemos?
incapacidade de fazermos/fazer?
a solidão do subúrbio?
tudo isto,
ou, nada disto?"
Tinta ecológica
terça-feira, outubro 07, 2003
verão foi-se mas aqui há sol e calor, um país sempre recheado de boas desculpas para não trabalhar(enquanto for preciso haver desculpas) o tempero do clima é meigo, faz-nos dóceis e amigáveis e ainda bem, a grande feição atlântica e o azul do céu serão melhores que a eficiência e Estado do bem-estar dos nórdicos. A melancolia sabe melhor que o suicídio.
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