segunda-feira, dezembro 26, 2005

Lembrar

Descobri o sítio onde comemos bifanas na noite do velório. Aquele sabor ficou por muito tempo associado ao cheiro da capela. Ainda me lembro do sabor da mostarda no momento em que tentava despedir-me diante do cadáver. A sua morte súbita era um acidente. Éramos demasiado jovens para que fosse mais do que isso.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

no meio

A minha casa tem dois lados. Como o coração e a cabeça. De um lado faz sol do outro sombra. De um lado o céu do outro os prédios. De um lado o silêncio do outro os carros. De um lado um vestígio de outros tempos do outro o Tejo. De um lado as árvores do outro o vento. Como eu não posso viver no meio da casa vou ter de encontrar outra.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

As árvores lá trás

A figueira ficou nua depois da tempestade. Foram-se as folhas já amarelecidas pelas primeiras chuvas. Mas, ao lado, as tangerinas ficaram cheias e a rebentar de cor.

domingo, novembro 20, 2005

Fim

Não parou de chover. Desde há 10 anos. Quando chove assim é a sério. Não há nada que se suspenda, acontece.

sexta-feira, novembro 11, 2005

do desamor

Ambos lutavam contra o seu destino. Ele, tinha construído durante toda a juventude um tese sobre o Bem e convencia-se, a ele e aos outros, que pô-la em prática era o seu lema diário. Ela, queria convencer-se a não ser a queca intermédia, de consolação, a não ser a amante de alguém, queria apaixonar-se, queria convencer-se de que era outra, com uma auto-estima aceitável. Ambos lutavam contra o seu destino.
Irremediavelmente.
Se ele não andasse a construir patranhas sobre a moral e o bem talvez pudesse não abusar da falta de amor próprio da rapariga. Se ela recuperasse algum desse amor talvez conseguisse que ele se apaixonasse por si.
Tanto por acontecer num subúrbio próximo de si.

segunda-feira, outubro 03, 2005

não nos precipitemos

Os Castros chegaram com as camionetas cheias de fios, cabos e as lâmpadas. Hoje vi uma senhora a vender castanhas. As lojas dos trezentos ou do preço certo têm as montras cheias de roupas de pai-natal e bolas para a árvore. Há um calor luminoso em Lisboa e isto deve confundir as composições de português dos meninos na escola.

terça-feira, agosto 30, 2005

do amor

O amor devia fazer-nos pessoas melhores e devia aproximar-nos da nossa verdade, estarmos mais próximos de nós, de quem somos. Disse-lhe isto em Bloomsbury Street, ele sorriu acatando, disse-me adeus e que não andasse de metro nos próximos tempos.

sexta-feira, julho 29, 2005

never ending story

uma torneira avariada, depois uma fuga de gás, depois o pedreiro, o mijo do cão do vizinho nos sítios inesperados, depois marcar as análises, as ecografias, tentar aquela especialidade médica, esperar em listas de espera, nova torneira avariada, uma invasão de formigas, entregar papéis em repartições, ir buscar papéis a repartições, ter de chatear pessoas em repartições, passar as mãos por água fria quando está calor. E se estes gestos, se moralizados, fossem uma cavalgada da vida contra a morte?

sexta-feira, julho 15, 2005

E disse-me peça tudo a Jesus que ele dá

Hoje uma senhora de alguma idade, um rosto muito belo, espalhou fotografias suas de quando era muito jovem, sobre o balcão para que desconhecidos como nós as vissem. Os olhos e a pele brilhavam como numa criança. Tirava foto a foto do saco de plástico sem parar, sofregamente, apesar dos seus gestos e olhar doces.Talvez não estivesse a mostrar-nos as suas fotos, mas estivesse a pedir-nos que confirmássemos, com ela, ter havido outro tempo, não podia ser agora uma mulher com um casaco de malha em vez do vestido comprido de estrela de cinema. A pedir-nos que não a deixássemos morrer.

quinta-feira, julho 07, 2005

Esse viajante, tal como o outro, menos mundano e mais espantado, os dois patrícios, podiam ser Boris, a personagem mais carnal por onde quis dizer poesia. Queria mesmo era obrigar Boris a vivê-la. Deixei-o encostado a uma janela qualquer a fumar e a dar tragos pequenos numa cerveja checa muito popular nos states. Ainda aí está, aí o abandonei.

quinta-feira, junho 30, 2005

Se numa noite de Junho

Invejava-lhe aquela liberdade. A dos viajantes. Poder estar aqui, além ou noutro lado, comprar um caderno como um quilo de fruta, escolher todos os dias o percurso numa cidade, uma esplanada, um bilhete de autocarro ou de avião. Invejava-lhe até perceber que quando aqui chegasse viria com pés tão ligeiros que mal notaríamos a sua, ainda que doce, presença.

terça-feira, junho 07, 2005

madrugada

É difícil encontrar horas quietas. Em que nem as folhas das árvores se agitem apesar de um sopro ligeiro vir bater-me no rosto. Nessas horas é possível ludibriar o tempo, ou a ilusão dele, e ficar inteiramente no aqui, no presente.

sexta-feira, maio 20, 2005

reconheço que a história da caixa tem tanto interesse como descrever o movimento circular das moscas no (quase) verão. Sei que agora é tempo de regar mais as plantas(que este ano floriram todas cá dentro) e de nos protegermos do sol flagrante.

domingo, maio 08, 2005

Tinha uma caixa especial. Tinha-a há tantos anos que perdi a conta à sua origem. Era uma caixa de cartão diferente de todas as outras. Chegou e partiu-me a caixa, não de uma vez só mas uma destruição lenta e continuada. Podia ter partido os pirex e as louças todas da cozinha. Tudo o que era de vidro e tinha valor já foi aliás. Mas não, resolveu destruir a caixa de cartão diferente de todas as caixas e que estava comigo há tanto tanto. Os objectos que sobrevivem mais de uma década sendo-nos próximos e úteis passam a insubstituíveis. Misturaram-se na nossa vida a ponto de se misturarem connosco. Alguém tocar-lhes e fazê-los úteis para si mesmo é igual a tocar-nos. Alguém destruí-los é o mesmo que entrar e destruir-nos um pouco. Principalmente quando não se entende isso.

quinta-feira, maio 05, 2005

sexta-feira, abril 29, 2005

adeus contador de visitas

o blogpatrool abandonou-nos e ficamos sem registo do esforço lento desse contador, não saber se nos ouvem entrava o falar mas lança-nos num novo discurso orgulhoso. Orgulhosamente sós como dizia o velho sebento. (se não era um dos sete pecados mortais devia)

sábado, março 19, 2005

Antes da Primavera

Há alturas em que, ou por tomarmos um bom medicamento que nos arranca à febre dos últimos dias, ou porque sem ela ficamos despidos da última desculpa, tudo se detém e sabemos que algo nos aguarda, algo espera por nós impreterível e forçosamente. Pode ser um enigma antigo, pode ser o mesmo de todos os dias mas sentido de forma mais evidente. Difícil perceber mas há alturas, como esta, que têm de ser desmascaradas e resolvidas.
Posso procurar bem a música que quero ouvir e ainda assim não ser o suficiente. Parece que não existe, ou se existe, impossível dar com ela. Talvez tenha de a encontrar fora daqui. Faltam coisas a esta sala para que eu a habite com o à vontade e a familiariedade necessárias. O que fazer para que uma pessoa não seja estranha entre estes estranhos objectos? Ou estranha disposição de objectos. Será por aqui o caminho à pergunta original? Ou é mais uma desculpa, mais elaborada que uma gripe persistente?

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Quando acordo surpreendo-me, nem que seja num milionésimo infinitisimal de segundo. Agora surpreendo-me também quando vejo os teus olhos, ou quando sinto o teu corpo. Mais um milionésimo (este mais longo). Se ficarmos juntos perderei esta surpresa no tempo?

segunda-feira, janeiro 24, 2005

demasiado corpo

Já não bastava ter um coração gigante a bombear-me no peito. Agora adormeço rápida e bruscamente deixando acordadas as respirações de assassinos. É possível viver com assassinos. Que eles tenham vivido sempre junto a nós. Numa manhã descobrimos os seus crimes e sabemos que é demasiado tarde para nós próprios. Pômo-nos a chorar, de pena própria ou alheia. Principalmente por não sabermos fazer nada, nem parar o crime-isto porque se pode assassinar alguém durante muito tempo-nem mudar ou ajudar o criminoso-afinal vivemos sempre com ele-nem passar a adormeçer lentamente sossegando o coração gigante.